Zodiako, a alegoria barroca contra o baixo astral

Sou Zodiako. Minha missão é de paz: descobrir porque a Terra se autodestrói. Um problema difícil, eu sei. Mas… e eu? De onde vim? Sim, quem sou eu?”. 40 anos atrás, mais precisamente em maio de 1974, saía na revista Crás! a primeira estória de Zodiako, o fascinante personagem do quadrinista de origem lusitana, mas de grande história no Brasil, Jayme Cortez.

A revista Crás! pela editora Abril era um espaço para produção nacional, teve a participação de diversos artistas, porém optou em se consolidar pelo humor (principalmente pelo  Kactus Kid, de Renato Canini, e Satanésio, de Ruy Perotti), acabando abruptamente no 6ª número em 1975. No mesmo ano pela editora Saber saía Zodiako, desta vez em formato álbum, com introdução de Álvaro de Moya e a inédita estória Adeus, Apolo! (Sendo honesto, é uma dedução pela quantidade de páginas da Crás! que infelizmente não possuo e do álbum de Zodiako).


Zodiako ganhou o prêmio “O Tico-Tico” no 2ª Congresso de Histórias em Quadrinhos de Avaré, foi exposto no teatro Ruth Escobar e no 11ª Salone Internazionale de Lucca, na Itália. No ano seguinte sairia na revista também italiana Sgt. Kirk e em 1979 na portuguesa Riquiqui. No Brasil Zodiako foi republicado, novamente em álbum, desta vez com o subtítulo um tanto bobo “Um Herói do Futuro” pela Press editorial o que parece, sem muita certeza, ser do ano de 1986. Uma história e tanto para uma saga que sequer foi concluída e hoje é um gibi pouco conhecido.
Do que se trata Zodiako? Difícil resumir. É uma saga esotérica, heroica, erótica, uma alegoria política e metafísica do homem diante do poderio nuclear. Os 12 signos do zodíaco, perdidos em discussões e disputas de ego infindáveis, reúnem-se para resolver o problema da autodestruição da Terra e a perda de sua paz astral. A eles se somam as constelações de Cetus e Hydra. Na falta de uma síntese, a Grande Luz é convocada e então responde procurando em todas as formas de vida do jovem planeta um emissário, alguém para entender o que acontece conosco. Uma escultura bastante clássica é forjada: Zodiako, que ganha carne, sangue, vida e 14 poderes diferentes que pode acionar, um de cada vez, de cada entidade.
Além desta narrativa de origem, segue-se a estória “Adeus, Apolo!” onde no Sol, tentando buscar respostas sobre o comportamento da Terra, Zodiako encontra um Apolo pra lá de dionisíaco, um sujeito gordo, vaidioso, tarado e que se diverte jogando homens-carvão para alimentar as chamas eternas. Zodiako se revolta, descobre que existem diferentes Apolos e que este aprisionou os outros e instituiu uma ditadura, acabando com uma sociedade igualitária onde todos eram homens-chamas livres. Então Zodiako auxilia numa rebelião dos homens-carvão, dos cientistas exilados e das sacerdotisas da fecundação. Apolo era um cargo afinal – e ele cai. Vale dizer, cai para um Apolo anterior ao golpe assumir.
Para uma história em quadrinhos publicada durante a ditadura militar, tocar em alteridade de poder, golpismo e restauração é algo difícil de não ver como uma poderosa cutucada. Além, é claro, da escravidão dos homens-carvão (todos, obviamente, negros), dos cientistas exilados que possuem novas soluções de energia a fim de evitar o sacrifício dos homens-carvão (seriam intelectuais perseguidos como ideias distintas de organização do trabalho?) e das sacerdotisas da fecundação que dão a boa dosagem de erotismo contra a caretice dos bons valores e costumes de uma sociedade regimental.
Ainda no terreno do erotismo, o mundo de Zodiako se dá em formas clássicas, com seus órgãos sexuais sub-desenvolvidos mas com sua nudez e musculatura muito bem delineada. No caso das sacerdotisas, pelas suas vaginas sai um fogo capaz de reduzir um deus às cinzas. Além disso, em uma ocasião Zodiako se torna gigante e urina sobre seus adversários, assim como em outro momento um dos cientistas exilados fala que a guarda do tirano Apolo assim o protege pois não possui moral nem sexo.
Essa aproximação entre sexualidade e beleza clássica em muito retoma o barroco que permeia o traço contínuo, dobrado, por vezes infinito de Cortez. Como na arte barroca, há uma exuberância do corpo e uma alçada do espírito ao mesmo tempo. Tudo se torna uma paisagem mental homogênea, embora heterogênea em suas predicações. Do ponto de vista do roteiro, novamente barroco, um mundo de deuses sem lugar precisando de um salvador em quadrinhos que como Cristo nos retábulos barrocos estava ali menos para salvar homens e muito mais para salvar Deus ou deuses em sua função e coexistência. Se pensarmos a arte barroca como a arte da coesão, do desempenho coletivo infindável em forma de unificação, Zodiako é plenamente barroco.
Outra forte associação, que eu não saberia precisar até que ponto influenciou Cortez, é o filme Zardoz, de John Boorman, do mesmo ano de Zodiako, 1974. O filme com Sean Connery toca em questões semelhantes, como o esoterismo, a sexualidade reprimida ou desenvolta e as relações espirituais da vida e da morte. Da mesma forma ambos ainda se calcam numa narrativa e visualidade típica de super-herói, embora bem mais lisérgica.
Seja como for, até onde pude apurar, Jayme Cortez não deu prosseguimento às aventuras de Zodiako, nos deixando apenas no desejo de ler as futuras estórias anunciadas no final da HQ – como a estátua de uma mulher pela qual Zodiako se apaixonará, o encontro com Jesus e inimigos demoníacos e erotizados, novamente prefigurados em traço barroco ondulantes. 
Sem dúvida algo a se lamentar, pois Zodiako sequer estava engatinhando na sua busca por nos conhecer e nós, que já o havíamos conhecido pelo gibi, o perdemos para sempre com a morte de Jayme Cortez em 1987. Que os astros guardem Zodiako conosco.
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Zodiako, de Jayme Cortez e colaboração de C. Porta, só pode ser encontrado em sebos, embora circule na internet uma versão escaneada da republicação da Press editorial (que não consta a página que anuncia as próximas estórias). A edição que disponho, da editora Saber de 1975, veio, para a minha surpresa, com uma carinhosa dedicatória e autógrafo de Cortez para alguém chamado Sylvio. Quem será? Por que será que se desfez desse gibi? Mistérios bacanas que só livros com memória podem nos trazer.