Vamos fazer listinhas? 7 pecados capitais no estudo de HQs

Como alguns sabem, recentemente terminei minha tese de doutorado sobre histórias em quadrinhos (em breve ela estará disponível por aqui). Ao longo da pesquisa me deparei com alguns vícios e equívocos no olhar teórico sobre as HQs, sobretudo no Brasil. Pecados capitais que em algum momento também foram meus. Sem grandes pretensões, resolvi compartilhar essas anotações com vocês. 

1 – Sandman, Watchmen, Maus…
Uma das pragas da pesquisa de quadrinhos é a autêntica falta de pesquisa. Mais do que isso, a falta de erudição do pesquisador. Análises sobre Sandman, Watchmen, Maus e outras poucas obras costumam ser sintomáticas. São HQs “arroz de festa”, existem centenas, milhares de trabalhos sobre elas. Quando alguém quer pesquisar quadrinhos tendo lido muito poucas HQs, ou querendo buscar alguma legitimação para trabalhar quadrinhos na universidade, advinha o que escolhem? O problema não é o objeto – afinal parto do princípio que toda obra é inesgotável -, o real problema é o comodismo que leva o pesquisador a escolher esses objetos e, em muitos casos, repetir o que todo mundo já disse. Isso porque simplesmente não foi atrás da imensidão de blogs, artigos e monografias em tudo que é idioma sobre os mais famosos trabalhos de Neil Gaiman, Alan Moore e Art Spiegelman.
2 – Conteudismo
Esse é um vício mais localizado, comum nas escolas de Literatura, Filosofia ou áreas centradas na análise textual. Muitas pesquisas que partem de hipóteses promissoras sobre determinadas HQs acabam por boicotar seu próprio trabalho pela falta de qualquer cuidado em analisar como determinada leitura, discurso ou intertextualidade aparece nos meandros do traço, no contorno do requadro, no leiaute da página. Nietzsche não está só nos diálogos, na figuração evidente ou na sinopse de O Cavaleiro das Trevas. As vezes o bigodudo alemão está também nas sombras entre-cortadas, na simultaneidade de múltiplos quadros seguidos de splash pages, na fonte utilizada para dar voz aos personagens. O problema disso que chamo de conteudismo é a reiteração inconsciente de um preconceito histórico. Supostamente, os quadrinhos são um objeto estético simples e transparente, de modo que parece desnecessário olhar com mais cuidado para aquilo que não está no terreno da obviedade, apostando tão somente na estética traduzida como informação. 
3 – O Mensageiro
Esse vício, por sua vez, é típico das escolas de Comunicação, Educação e outras que partem da necessidade do ser humano se fazer entender. Aqui se repete o mesmo preconceito histórico do tópico anterior, porém com alguns desdobramentos diferentes. O principal é que se entende os quadrinhos como um agente dos Correios, aquele cara que estamos nem aí desde que ele encaminhe as mensagens que queremos. Com isso, tudo passa a ser tipificado como uma mensagem em circulação, o objeto se torna claro e translúcido e se reduz ao status de meio, veículo de passagem. Seja a favor da alfabetização pela adaptação do livro difícil do escritor “importante”, seja pela marca de uma corporação, cultura ou nação que se manifesta no brasão traçado do super-herói, há o investimento constante em perder a atenção sobre as ambiguidades, indefinições e aberturas dos quadrinhos. Tudo isso a troco das ideias que as HQs são forçadas a transmitir. Ora, o Capitão América não é SÓ a bandeira americana – e a charada não é assim tão fácil de matar.
4 – O quarteto fantástico do Batman
Batman é um objeto comum nas análises sobre histórias em quadrinhos, e da mesma forma é corriqueira certas seleções viciadas. Existe toda uma tendência de se debruçar extenuantemente sobre quatro obras: O Cavaleiro das Trevas, Ano Um, A Piada Mortal e Asilo Arkham. Essas quatro HQs, publicadas entre 1986 a 1989, além de serem histórias cultuadas (ou seja, novamente esforço de validação cultural), muito servem para aqueles trabalhos que procuram delimitar uma identidade do homem-morcego em função da análise que se pretende. Não esqueçamos que essas HQs foram lançadas logo após a Crise nas Infinitas Terras, com a reformulação do herói, e culminaram no filme de sucesso de Tim Burton. Contudo, Batman é muito mais variado e complexo. Cair tão somente em cima do período 86-89 é um desserviço ao personagem e seu universo.
5 – A fonte é uma miragem 
Sejamos honestos: num trabalho acadêmico existem dois tipos de referenciação. A primeira é aquela que só atende à exigência formal. Citamos o sujeito, ano e página, e se a informação estiver errada, problema dele. A segunda é aquela informação que se for errada, se a fonte estiver equivocada, toda a análise não se sustenta. E já vi isso ocorrer bastante. Não podemos esquecer que em grande parte a história das histórias em quadrinhos é bastante dependente de relatos verbais, causos contados por editores, quadrinistas e leitores, além de toda a inexistência ou obscuridade de documentos que possam comprovar dados relevantes. Por isso, quando determinada informação é crucial para sustentar todo um raciocínio, é sempre adequado duvidar de tudo e de todos, e assumir certa modéstia quando algo não soar tão seguro. Existe um texto bacana do Sérgio Codespoti no Universo HQ que desenvolve em exemplos essa ingrata tarefa.
6 – O mito do quadrinho autoral
Taí algo que merece um artigo próprio. Para efeitos de concisão, quero apenas falar da distinção e hierarquização ingênua, do esforço em rearticular um subjogo de alta cultura e baixa cultura dentro dos quadrinhos através de uma falsa guerra entre os quadrinhos autorais e os quadrinhos de gênero. O ponto importante, que qualquer análise histórica pode conferir, é que o quadrinho autoral é, ele mesmo, um gênero. Isso pode ser levantado por diferentes frentes: o autor no romantismo e seu legado de valorização na cultura de massa, a caricatura e seu préstimo caligráfico, a invenção do autor nos fanzines sobre a EC Comics, a autoria como gênero na segmentação de mercado em revistas como Witzend, Zap Comix, L’Écho des Savanes, Métal Hurlant, À Suivre, Raw, além do surgimento das Graphic Novels etc. É um papo comprido, mas cabe insistir que um estudioso deve de antemão duvidar de qualquer princípio definidor, qualquer pretensão ontológica sobre os quadrinhos, ainda mais em uma nada crítica bifurcação entre gênero e autoria.
7 – Santíssima Trindade: Eco, Eisner e McCloud
Outro problema comum nas análises sobre quadrinhos é o uso e abuso de Umberto Eco (Apocalípticos e Integrados), Will Eisner (Quadrinhos e Arte Sequencial, Narrativas Gráficas) e Scott McCloud (Desvendando os Quadrinhos). É preciso lembrar que Eco escreveu no início dos anos 1960, enquanto Eisner e McCloud no final dos 1980 e início dos 90. Ou seja, a teoria dos quadrinhos avançou, e muito, depois dessas obras. Insistir nesses autores só porque são canônicos, ou porque estão em português, é atestado de preguiça. O mesmo vale para alguns estudos sobre quadrinhos escritos por brasileiros como Moacy Cirne, Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin, entre outros, que da mesma forma se encontram em muitos aspectos obsoletos mas ainda são replicados sem qualquer moderação.
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Acredito que todos esses sete tópicos poderiam ser resumidos em ERUDIÇÃO SEMPRE (pelo menos foi o conselho que me dei e adotei). Da mesma forma que é importante ler toda obra de Derrida é igualmente relevante ler todo o Quarteto Fantástico de John Byrne. Se fica só num, corre o risco de falar bobagens sobre as HQs por pura falta de intimidade, se fica só noutro, abre mão de toda sorte de instrumentos que ajudam a qualquer análise fugir da reprodução do senso comum. O estudo das histórias em quadrinhos é um gibi muito grosso, e nós estamos apenas no começo.
Um único aviso: como sei – ô se sei! – que o mundo dos pesquisadores é uma terra de egos beligerantes e mal resolvidos, em nome de Crom peço que deixem o espírito mais leve, façam do guerreiro que existe dentro de você um cara tão ficcional quanto Conan e só depois comentem aqui. Evitará a fadiga!