Eco de quadrinhos

Umberto Eco morreu hoje (na verdade ontem, mas eu ainda não dormi). Estou longe de ser a pessoa mais adequada para falar de sua vasta obra. Como de costume, leio e releio um mesmo texto, e acabo deixando de ler tantos outros. Coisa de professor. Um dos que mais li e reli foi Apocalípticos e Integrados, livro de Eco de 1964. Inclusive lecionei a partir dos seus capítulos dedicados às HQs, no esforço contínuo de construir uma história da teoria dos quadrinhos. Coisa poderosa, ainda que subestimada.

Os anos 1960 foram especiais para os quadrinhos. Insisto na ideia de que as HQs tiveram três grandes eras: uma no século XIX, outra na primeira metade do século XX e uma terceira que começa nos anos 1960. Dentre as mudanças que se anunciavam estava a postura da academia perante os quadrinhos. Foi precisamente na década de sessenta que a universidade passou a olhar mais sistematicamente para aquelas populares tiras de jornal e revistinhas. Era uma semi-resposta à década anterior, em que toda análise dos quadrinhos era necessariamente moral e recriminatória. Contudo, nos universos de mudança há sempre vieses.

Enquanto na França o viés, às vezes mais próximo dos fanzines de nostalgia, tendia à busca por uma reinvenção epistemológica dos quadrinhos, uma reconsideração estética e sociológica (e eventualmente pedagógica), de caráter defensivo, na Itália prevalecia uma análise aparentemente mais fria, distanciada a partir de um instrumental teórico prévio, no caso, os estudos da cultura de massa. Contudo, foi essa reunião de forças (do lado francês, o Centre d’Études des Littératures d’Expression Graphice, do lado italiano, o Centro di Studio delle Communicazioni di Massa de Roma) que possibilitaram o 1ª Salão e Congresso Internacional de Histórias em Quadrinhos, na cidade italiana de Bordighera, em 1965.

Portanto, poucos meses antes desse histórico encontro, Apocalípticos e Integrados foi publicado. Inserido na problemática cara à academia italiana da época, Umberto Eco questionou os quadrinhos a partir dos estudos de cultura de massa. Como diferencial, estava a consistência e contundência de suas análises.Três são os capítulos estritamente dedicados aos quadrinhos:

Leitura de “Steve Canyon”

De longe o mais ousado, não por se debruçar numa “mensagem comunicacional” dos quadrinhos (isso já se fazia há décadas), mas por arriscar-se numa extensa análise formal. A partir de uma única página da tira de Milton Caniff, Eco propõe-se dissecar a forma dos quadrinhos (ou pelo menos de um tipo de quadrinhos), rearticulando seus signos pelos recursos que lhe são inerentes. Isso tudo parece óbvio, quase tolo. Mas há de considerar que até hoje existe uma grande insensibilidade aos recursos dos quadrinhos. A própria prevalência do termo “arte sequencial” é um sintoma disto, quando põe pra baixo do tapete a igualmente importante (diriam alguns, até mais) simultaneidade. Claro, Eco não opera milagres. Sua análise está muito contaminada da análise fílmica do mesmo período. Até mesmo seu objeto não é uma mera coincidência: Milton Caniff, o artista que fez da decupagem cinematográfica uma escola de quadrinhos. Mas isso não diminui o brilho de muitas observações, sobretudo do interessante contraponto entre Steve Canyon e Li’l Abner (Ferdinando) de Al Capp. Ao final, Eco conclui algo que seria considerado um absurdo poucos anos antes: a partir da leitura de uma única página de quadrinhos, muito há por se escrever.

O Mito do Superman

Deixando de lado maiores análises formais, este capítulo opera a façanha de vislumbrar em Superman (e tantos outros populares personagens dos quadrinhos) uma qualidade mítica. Não se trata de uma comparação mitológica ao personagem. Aliás, não é uma mera análise de personagem. O que Eco estava dizendo é que havia uma qualidade mítica nos quadrinhos que produzem tal personagem. Isso era bastante diferente do que se costumava dizer. Era e ainda é. Basta olhar a imensa maioria das adaptações cinematográficas de super-heróis: existem sempre comparações entre mitos e super-heróis aqui e ali, mas poucos entendem que não é o personagem o mito, e sim a própria HQ, de modo que uma adaptação precisaria igualmente criar um novo mito em cinema. Papo complexo, e que cada vez mais parece atual.

O Mundo de Minduim

Dos três, o escrito mais breve. Analisando Peanuts, Eco demonstra como a obra de Charles Schulz concilia de um lado a lancinante crítica social de Jules Feiffer, e do outro o lirismo de George Herriman em Krazy Kat. Com isso, afirma Eco, Peanuts faz poesia.

“Essas crianças nos tocam de perto porque num certo sentido, são monstros: são as monstruosas reduções infantis de todas as neuroses de um moderno cidadão de uma civilização industrial.”

Ao longo desses três capítulos, Eco faria também uma modesta aposta: a “liberdade autoral” seria capaz de abrir um mundo de novas possibilidades aos quadrinhos. Não teria como dizer isso em hora mais propícia. Naquele mesmo ano, na França, sairia o álbum Barbarella de Jean-Claude Forest, e, no Japão, seria lançada a vanguardista revista Garo. Nos EUA, dois anos depois, viria Witzend de Wallace Wood e companhia, e quatro anos depois, a Zap Comix de Robert Crumb. O mundo dos quadrinhos jamais seria o mesmo.

Se hoje os escritos sobre quadrinhos de Umberto Eco são, em grande parte, ultrapassados, o brilhantismo de seu olhar continua vivo. Cabe a nós, agora diante da morte do pensador, sustentar essa vividez. Quem sabe ler uma história em quadrinhos com a maior dedicação, rigor e criatividade da qual somos capazes? Esse é sempre um bom começo.