Tungstênio – As narrativas que nos tonteiam…

O Brasil mais do que já se consolidou como um berço de grandes desenhistas. Já a nossa falha histórica é a falta de bons narradores. Não falo de uma suposta falta de boas histórias ou bons roteiristas, mas efetivamente de narradores, de autores que são capazes de darem o salto decisivo que faz de uma história uma narrativa. Uma história, uma boa história, é importante, mas esta é uma massa, um prato de macarronada com fios atravessados por todos os lados. Dar uma linha, seguir um fio, e ainda garantir uma boa refeição, é o trabalho do narrador.
É nesse sentindo que Tungstênio de Marcello Quintanilha surpreende. Numa HQ de quase 200 páginas, Tungstênio narra um cruzamento de vidas e as desdobra, dá aos personagens uma ambiguidade numa desenvolta sucessão de eventos que só crescem em tensão. A história se passa em Salvador, o Seu Ney é um sargento reformado de papo furado com o jovem Caju, um pequeno traficante de drogas. Na praia homens usam explosivos para pescar. O Seu Ney força Caju a pedir ajuda. Paralelamente conhecemos Keira, a insatisfeita esposa de Richard, um policial grosseiro que é chamado por Caju para resolver o problema da pesca ilegal. 

Quatro personagens que se entrelaçam e deslaçam e se mostram belos em seus defeitos, como a busca por autoridade de Ney, a covardia (e posterior coragem) de Caju, a persistência do truculento Richard e a confusão emocional (e mentiras que todos contamos a nós mesmos) de Keira. O narrador inclusive tem a sua própria voz, e desafia os personagens, os questiona, os coloca contra a parede ou nos convida a considerar algum aspecto do passado, em comentários que os personagens não ouvem, mas nós sim, nós que nos deixamos levar pela narrativa.
Já escrevi, aqui no QnS, sobre o apreço de Quintanilha pelos diálogos e sua disposição nos balões. Em Tungstênio se os balões não ousam algo para além do funcional, os diálogos no limiar da absoluta coloquialidade são excelentes. Cabe notar: sou gaúcho. Não sei nada da fala das ruas da capital baiana. Tem horas que não entendo direito o que os personagens dizem. Mas aí entra o talento de uma narrativa. O sentido importa menos, o que vale mais é uma espécie de prazer musical, de como narrativamente a história acaba sendo muito bem orquestrada com esta aparente naturalidade dos personagens (digo aparente porque não tenho como saber se as falas estão “fiéis”).
É preciso frisar: narrador não é sinônimo de autor. O narrador, de fato, é construído pelo autor, mas é também pelo leitor quando este se apropria daquela história, quando ela o atravessa e passa a ser parte também da sua experiência. Nisso, Tungstênio é grandioso. É uma narrativa envolvente, uma história que no ato da leitura nos faz cair em vertigem. É essa tontura que faz a diferença em toda boa narrativa em quadrinhos.
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Tungstênio foi publicado pela editora Veneta em 2014, numa edição capa-dura com ótimo acabamento. Ainda é fácil de encontrar nas livrarias.