Tank Girl mítica e desperdiçada

Ela é uma mulher durona. Vive no outback australiano, mora num tanque de guerra e namora um canguru mutante chamado Booga. Seu mundo parece um cenário pós-apocalíptico, porém na maioria das vezes o apocalipse é só a sempre atual guerra entre caretice e porralouquice. Ela é geneticamente abençoada, é linda, gostosa e intensamente jovem. Mas também é doidinha, esculhamba o mundo e se esculhamba. Está sempre bebendo, fumando, falando palavrões, não é muito preocupada com higiene, depilação ou bom odor. Está constantemente com curativos. Mas suas roupas são muito descoladas. Adora mitologia. Ah, e ela mente, rouba e mata. Mas ela não é má, é só cínica mesmo. Ela não tem vilões porque os vilões são o status quo. É na normalidade que devemos cagar. Essa é a Tank Girl, a garota por quem você vai se apaixonar enquanto ela quer que você se foda.
Tank Girl foi criada por Jamie Hewlett e Alan Martin. A história de sua publicação seriada é uma narrativa de ascensão e queda que começa na efervescência underground e acaba no estéril mainstream. Publicada seriadamente na revista britância Deadline a partir de 1988, Tank Girl se tornou um sucesso explosivo, republicada em diversos países, inclusive no Brasil pela revista Animal em 1991 (ganhando capa na edição 20). A intempestiva moça e suas aventuras de tom anárquico, cínico, absurdo e, para parecermos inteligentes, batailleano, pareceu ter atingido as sensibilidades de boa parte do ocidente que na virada da década acordava na ressaca com Reagan e Thatcher de um lado da cama e a falência do socialismo no outro.

A Deadline, fundada por astros da revista 2000 AD, Brett Ewins (Skreemer) and Steve Dillon (Preacher), não era somente uma revista em quadrinhos. Fazia parte da publicação artigos, na maioria sobre música alternativa e independente. Por essa razão que as primeiras estórias da Tank Girl vinham acompanhada de “trilha sonora”, sempre com a sugestão de alguma música para ser ouvida durante a leitura. Também era da revista um espírito contracultural, uma violência artística ao modo punk. Nesse ponto Tank Girl fora apenas a mais famosa dentre outras produções que despontaram na Deadline.
Thatcher Tank Goody – 1986

Por tudo isso, é de uma coincidência muito significativa a Deadline deixar de ser publicada no mesmo ano em que saía nos cinemas o longa-metragem da Tank Girl. O filme de 1995, dirigido por Rachel Talalay, não é de todo ruim, embora pareça que não entendeu ou fingiu não entender o que a Tank Girl de fato era. Fazê-la uma gatinha irreverente na luta contra a opressão de caras malvadões é a sinopse de um filme de super-herói. Nos quadrinhos, diferentemente, a violência sensual e sangrenta da Tank Girl chega em alguns momentos a ser repulsiva, fazendo com que eventualmente as piadas parem de funcionar e você só consiga enxergar uma garota numa louca, e provavelmente curta, trajetória de auto-desperdício. Por isso que quando Jack Kerouac encontra a Tank Girl acaba apaixonado e completamente chocado pela garota, afinal, ela faz o autor de On The Road parecer um mero católico mal-resolvido querendo brincar de vida intensa diante de uma verdadeira especialista.

A estória “The Fall and Rise and Fall and the Ship in the Bottle” leva isso ainda mais longe, com a Tank Girl na sarjeta, diante do fracasso metalinguísitico dos seus quadrinhos e de uma vida completamente desperdiçada na mais deplorável condição. Georges Bataille já apontava, na primeira metade do século XX, que assim como existem em nós forças de conservação da vida e da ordem, há também uma vontade de poder pelo desperdício, a ética do excesso (e da excreção) a que todos nós nos dedicamos em maior ou menor dose. Uma espécie de barato no auto-consumo, que faz o sexo sujo corresponder à vontade artística mais violenta. É nesse ponto que a HQ da Tank Girl ganha significância, e é por essa razão que o gênero de super-heróis não a alcança. Não há vilões a se combater, há apenas um comportamento a se afirmar no mundo, uma alegria da mais pura vida louca. 

A Tank Girl, portanto, é um mito moderno. Aliás, em mais de uma das HQs é procurado nela correspondências com deuses destrutivos (e sensuais) da cultura aborígene. Em uma delas inclusive é explicado que a Tank Girl é a deusa Tanicha, encarnada das entranhas em explosão de um homem branco que queria roubar as terras dos aborígenes, de modo que justificaria porque a Tank Girl seria igualmente branca e violenta. O irônico nisso tudo é que foi esse próprio poder mítico que fez a personagem morrer miticamente. Isto é, o caráter de ser narrada mensalmente, de fazer parte da vida de seus leitores como algo que é de sua própria vida cotidiana, alavancou o sucesso de uma história em quadrinhos que quando se mostrou um bom negócio, quando finalmente converteu-se em mainstream, sua força acabou.

As mensais findaram, o filme fracassou nas bilheterias. Tank Girl pareceu mais e mais datada. Claro, até hoje são publicadas esporádicas novas minisséries da personagem, algumas muito boas e divertidas, mas a mítica em geral se foi. Fica o convite então para que o leitor se deixe levar na companhia da Tank Girl em seus míticos primórdios na revista Deadline. Como ela provavelmente diria, é um puta desperdício gastar tempo em um monte de HQ velha que virou item de colecionador punheteiro, mas o que seria da vida sem a graça de torrar todo o nosso suado dinheiro roubado na merda de um gibi? 

________________________________________________________
Toda a fase da Tank Girl na Deadline foi publicada em três volumes pela editora londrina Titan Books em 2009.