Salve o Dragão, o Tempo e o Fantástico

É interessante notar como as histórias em quadrinhos acabaram ocupando o espaço privilegiado das narrativas de ficção científica e fantasia no Brasil. Enquanto o cinema fantástico ainda tropeça em problemas orçamentários, a literatura fantástica sofre pela falta de prestígio acadêmico, e ambos não encontram uma forma de narrar que não os faça parecer uma cópia de segunda ordem da produção estrangeira, os quadrinhos caminham com maior desenvoltura no mundo da fantasia. Isso tem uma história, é claro. 
Primeiramente as histórias em quadrinhos pouco foram visadas como “alta cultura”, e além disso sempre foram uma mídia barata, características que propiciaram a oportunidade de, a grosso modo, atirar para tudo que é lado. Mesmo em movimentos de valorização do quadrinho nacional, dos anos 1950 aos dias de hoje, a preocupação temática, ou pior ainda, a “função social” passou longe, felizmente, das exigências dos quadrinistas brasileiros.

É na esteira dessa história que saiu, no finalzinho de 2013, Salve o Dragão, de Diucênio Rangel. A estória se passa em 2189, na Lua, onde ainda está em testes a viagem espaço-temporal. Por causa de um crime que ainda vai ocorrer (um Tiranossauro Rex foi tirado do seu tempo, e está pipocando de época em época), a viajante no tempo Anya Tereshkowa é convocada para ajudar. Depois do mistério solucionado, descobre-se onde o bichano foi parar: Inglaterra, ano de 1290. Até então nunca humanos haviam viajado no tempo que não fosse ainda dentro da câmara de testes. Anya seria a primeira a ter que ir de fato para uma época e um lugar tão distante. 
É lá que Anya se depara, nessa Inglaterra ainda dominada pela Igreja, que o Tiranossauro é confundido com um dragão, uma jovem deficiente mental e epiléptica é acusada de ser a bruxa que o trouxe para este mundo e que é preciso seu tio, um veterano desiludido das cruzadas chamado George, assumir a incumbência de matar o dragão em nome da libertação da sobrinha. Óbvio, não? Anya encontrou São Jorge.
A partir disso uma sucessão de referências se cruzam, as botas de Anya que materializam sua roupa (o que acaba evocando fábulas como o Gato de Botas, Cinderela e O Mágico de Oz, onde os pés acabam atribuindo um caráter de transmutação), o fato dela ser fã de Nacional Kid (o mesmo que enfrentava monstros), e de ser uma mulher pioneira tentando resolver a situação numa época em que as mulheres estavam na agenda de erradicação da Igreja. Aliás, para as mitologias grega, romana e tupi-guarani, a Lua é tradicionalmente associada à divindades femininas. Visualmente Anya parece uma mistura de Príncipe Valente com Valentina, outros dois monstros ou deuses do panteão das histórias em quadrinhos.
Porém, evidentemente, a grande força está na interpretação do mito de São Jorge, procurando com considerável liberdade (já que Jorge teria existido aproximadamente mil anos antes) rearranjar signos como Lua, Dragão, Mulher, Guerreiro, Imagem. Paradoxos temporais, caros à esse tipo de trama estão lá, com o clássico jogo onde o viajante que conhece o mito acaba descobrindo-se ele o fundador do próprio mito (Exterminador do Futuro mandou aquele abraço). 
A narrativa de Diucênio Rangel é consistente, os personagens são interessantes, o universo é sólido, envolvente, e sua arte encanta, embora os desenhos, principalmente os movimentos e expressões as vezes pareçam duros, a finalização e as cores dão conta para criar o ambiente asséptico nos quadros menores e mais fechados da Lua e romântico nos quadros maiores e mais abertos da Inglaterra.
De alguma maneira, quase todas as narrativas de viagem no tempo que trabalham o instante preciso onde tudo muda apela para uma concepção de tempo que o gregos chamavam de Kairós, o filho de Cronos, o tempo oportuno, qualitativo, supremo, o momento onde a importância do tempo não está necessariamente na sua cronologia, mas naquilo que o faz se destacar, desenlaçar, um intervalo no próprio tempo para uma intervenção. É nesse momento oportuno, kairológico que surge um Dragão, Anya e um mito que precisa ser salvo, destacado. Salve o Dragão é a frase-título que sintetiza não só a HQ, mas toda uma tradição narrativa de viagens temporais. Com certeza uma fantasia que oportunamente vale experimentar.
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Salve o Dragão, de Diucênio Rangel, saiu pela editora Devaneio no final de 2013, com lombada quadrada, formato europeu, ótima impressão e um preço bem atrativo. Pode ser adquirido diretamente pelo site da editora.