O que é? Quem fala?


O blog Quadrinhos na Sarjeta nasceu no final de 2011 por causa de duas grandes vontades: ocupar-se numas férias um tanto tediosas e falar de quadrinhos com alguém ainda por conhecer. Nossa prática é o exercício crítico da leitura, o exercício pessoal e criativo da leitura dessa inquietante arte dos comics, historietas, bandas desenhadas, fumetti, mangás, gibis etc. Enquanto proposta, não nos interessa uma crítica moral e corretiva que diz “isso é bom” e “isso é ruim” (isso nunca diz muita coisa afinal); da mesma forma pouco esperamos uma leitura obediente, do modo que se prende em biografias (autor não é sinônimo de autoridade) ou em leituras prévias (dialogar sim, restringir-se não).

O ato da leitura é, no sentido mais amplo possível, uma viagem. No entanto, quando queremos juntar isso com crítica precisamos de algum rigor. Isso aparece no QnS como um princípio, um convite para uma argumentação que não caia no vale tudo e que possa ser aprofundada pelos comentários, pelas redes sociais, por pesquisas acadêmicas, pela experiência da cada um…   

Entendemos que falar de quadrinhos, ou antes, pensar a arte não é uma prática de higiene. Pelo contrário, a potência da arte aparece justamente quando ela supera as barreiras do mero formalismo, quando se consegue pensar a arte de uma forma não autônoma, e sim entrecruzada, atravessada na cultura e na vida. Os quadrinhos são imagens e textos, quadros e montagem, sarjetas e balões – perceber isso é importante, mas é apenas o começo. A potência dos quadrinhos, suas implicações estéticas, transcendem o suporte material quando nossa leitura acontece (assim como o urinol de Marcel Duchamp se tornou mais do que um simples urinol somente porque alguém decidiu vê-lo diferente).

Os quadrinhos estão na sarjeta porque a sarjeta nas HQs, esse elemento que é o espaço, ou traçado, ou divisória meramente sugerida, geralmente em branco, entre um quadro e outro quadro, é o lugar onde a leitura criativa mais acontece. É na ausência, na elipse sugerida entre quadros que nós imaginamos toda sorte de imagens que não estão concretamente ali. Isso não ocorre somente na sarjeta. Em cada desenho e cada palavra o mesmo acontece, embora de forma menos óbvia. Partir em busca desse além do óbvio é a abordagem que defendemos para o QnS, para além dos guias de consumo, dos moralismos corretivos ou das notas de estrelinhas.

Por isso a via crítica é tão cara para nós. A aproximação etimológica com palavras como crise e crime ajudam a explicar. Criticar é violar algo, rachar, provocar uma ruptura, uma brecha por onde o nosso olhar trabalha. Esse olhar traz crise e é criminoso porque vai muitas vezes contra o senso comum ou a própria concepção do autor. O que interessa para a crítica é ver como a leitura de um gibi acontece com o leitor, pelo leitor, na cisão aberta (tal qual uma sarjeta) entre o que vemos e o que nos olha.

Por fim resta a paixão, a quadrinhofilia embasbacada, a curtição pelo que tem saído das gráficas, pelo que tem chegado na nossa casa, pelo que tem mofado na nossa estante… Lendo o que der vontade, compartilhando, procurando espanar a poeira e ver de outra forma.

Ainda sarjeta. Não fossa. Sarjeta com alegria!

Vale o esforço, não? Portanto participem, escrevam, ataquem ou defendam. Boa leitura e sejam bem-vindos.

Linck. Pesquisador. Professor. Cineasta. Estudante. Colecionador. Um pouco de tudo. É o megalopata (ir)responsável pelos textos.

desenho de Bruno Nucci
Thais. Responsável pelo visual do QnS, a revisão dos textos e às vezes se aventura em escrever também.

desenho de Amanda Barros
* Para os desavisados, todos os textos publicados no QnS podem revelar detalhes das tramas. 

** Todas as imagens aqui postadas servem para divulgação ou ilustração das análises apresentadas, não devendo ser copiadas com qualquer intuito que não sejam estes. Caso alguém se sinta prejudicado, comprovando a propriedade do material, ele será removido imediatamente.