Qual é o problema dos estereótipos?

Nenhum! Sim, essa é a resposta. Qual é o problema dos estereótipos? Repito: nenhum. Mas calma lá que para se chegar a isso exige um percurso.

Consideremos o que é um esteriótipo. O bom etimologista dirá logo “impressão sólida”. É uma palavra do mundo da impressão. Não por acaso, esse mundo propiciou outros termos e seu sentido original acabou transbordado. É o caso do clichê, do xerox, ou toda forma de associação entre reprodutibilidade técnica e reprodução impensada, massificada em alguma forma de alienação. Por isso, então, dizemos “esse personagem é ruim porque está estereotipado”, ou “aquela história é tão clichê” ou “pra que fazer mais uma HQ que é um xerox de Watchmen?”.  
Apesar da modernidade de tais expressões, vinculadas a um mundo pós-Gutenberg, esse tipo de percepção é ainda mais antiga. Tem a ver com desconfianças platônicas da imagem. Caso do conceito de simulacro, uma espécie de imagem degenerada que se reproduz desvinculada de uma Essência. O platonismo em grande parte explica porque a palavra estereótipo ganhou sua implicação política: afinal, o estereótipo, como um bom simulacro, é a cópia desvirtuadora de uma essência. É quando alguém desenha um homossexual como uma bichinha saltitante e outro retruca “isso é um estereótipo, em essência nada diz sobre o que é ser homossexual”. 

Contudo, não podemos perder de vista que a essência das coisas é uma disputa cultural. Diferentes épocas, povos e pensamentos fizeram da essência algo passivo de mudanças, guerras e reformulações. Se existe uma essência universal, ela ainda nos é um mistério, um enigma que ninguém teve capacidade suficiente para decifrar – e que, caso alguém ache que decifrou (pela ciência ou pelas religiões), não conseguiu convencer todo mundo. Por isso tudo, o indivíduo que desenhou a bichinha saltitante poderia responder “certo, mas qual é a essência de um homossexual?”.

Como essa pergunta não tem resposta, nós, culturalmente, a levamos para o campo da ética. O debate imaginário então teria um novo desenlace com a acusação de que “o problema desse tipo de caracterização do homossexual é que ela reproduz uma imagem que reafirma o preconceito, o repúdio, a ridicularização etc”. Isso, como podem notar, se aplica a todos os estereótipos de mulheres, gordos, negros, índios, evangélicos, muçulmanos, entre outros. Todavia, esse recurso filosófico de se lançar numa discussão ética a partir de uma essência perdida muda completamente a questão do estereótipo. O problema deixa de ser o estereótipo em si e passa a ser os julgamentos que fazemos a partir dele. 

Ora, não seriam os estereótipos caricaturas, histórias parciais, características exageradas e refiguradas? A não ser que queiramos resgatar novamente uma busca pela essência das coisas, a rigor, não há problema algum com o estereótipo. É o uso dele que pode se tornar eticamente problemático. É o caso de alguém que leu uma história com um personagem negro beberrão e achou que todo negro é beberrão. Notem, o problema deixou de ser o personagem estereotipado, mas o indivíduo que achou que aquele estereótipo define toda pessoa de pele negra. Com isso, o problema deixa de ser da arte, e passa a ser da educação – e qualquer exercício de censura (como proibir o personagem negro beberrão) tende a ser, no mínimo, ineficiente, pois não atingirá o cerne do mecanismo lógico que produz a imagem de que todo negro é beberrão. Afinal, qualquer outra imagem (do negro gente boa ou malandro ou esforçado) também correrá o risco de ser tomada como objeto-fonte de um julgamento. 

Nessa linha, portanto, é a responsabilização do olhar (tarefa cara à educação) o único instrumento eticamente capaz de  reagenciar a circulação de imagens. De tal modo que poderia inclusive subtrair do estereótipo aquilo que nele mais se engessa: a sua normalidade, a sensação de norma que faz, por exemplo, toda mulher ser um objeto sexual. Será então que a “impressão sólida” deixaria de ser sólida e se tornaria apenas impressão, tão volúvel quanto a de um olhar a-normal? Taí uma boa discussão que precisa deixar os estereótipos.