Promessas de Arte e os quadrinhos brasileiros

Hoje é Dia do Quadrinho Nacional. Ao longo deste mês, aqui no QnS, nos comprometemos a fazer exclusivamente leituras de quadrinhos brasileiros. Foi buscada alguma miscelânea entre a produção recente e clássicos, entre a turma da mônica e o fenômeno mangá, entre a fantasia e a biografia – no caso de uma avenida, mas tá valendo. Como ano passado, nessa mesma data olhei para trás procurando pensar o que diabos significa quadrinho brasileiro, nacional, para que serve, esteticamente falando, esse tipo de demarcação geográfica, hoje volto-me para a questão da arte quadrinizada. Por quê? Porque entre tantas coisas que servem para pensar os quadrinhos brasileiros está a indagação sobre sua capacidade de se fazer arte. Pergunto: estamos conseguindo?

Óbvio, de cara esbarramos num desafio impossível: delimitar o que é arte. Para eu não escrever uma monografia aqui me limito numa distinção muito bacana que aprendi com Jean-Luc Godard: a Cultura é a regra, a Arte a exceção. A Cultura é o nosso dia-a-dia, os gibis que compramos, a estante que exibimos, os blogs onde debatemos. A Arte é o que escapa a isso, é aquilo que não se fala, mas se faz, se mostra e que escapa das apreensões do senso comum, que não possui um significado encerrado, regrado. Ou seja, a gente até pode olhar pra Mona Lisa é dizer que ela serve pra ser bela, enquadrá-la no Renascimento, explicá-la através da biografia do Leonardo da Vinci, etc. Tudo isso é Cultura. Mas será aquilo que sem muita explicação ainda nos faz mirar para esse quadro e não esgotá-lo em significados que a Arte acontecerá.

Fico pensando, as histórias em quadrinhos brasileiras acontecem como arte? Será que além da função de entretenimento, do fazer negócio, da produção, do trabalho, será que além disso tudo estamos diante de Arte? Não é uma reposta fácil, pode ser respondida individualmente como por uma análise sociológica. Eu aqui, neste espaço virtual, faço isto pela leitura: Leio como Arte. Por isso gostaria de neste dia comentar a trilogia Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo, de Pedro Franz.
Com 12 capítulos em três edições, cada um é bastante diferente do outro. A linha geral é quase uma antevisão das passeatas que tomaram o Brasil em 2013. No ano de 2018 em Florianópolis, um grupo militante de jovens chamado Jolly Roger são acusados de terrorismo, a repressão policial aumenta, ocorre torturas, desaparecimentos, alguns jornalistas independentes se manifestam  e as pessoas em revolta saem em massa às ruas. Porém, apesar das semelhanças, Promessas de Amor está muito mais interessado na particularidade de todo esse acontecimento, na revolução íntima em nome de exceções às regras da vida e, artisticamente, à experiência dos quadrinhos.
Isto se dá pelo formato. Na primeiro edição, Limbo, a narrativa é mais convencional, sua arte em preto e branco apesar de algumas experimentações e lirismos, está ali pra fazer a estória andar. Só pelo fim as experimentações se intensificam, a ponto de casar com a segunda edição, Underground, onde a HQ, disposta dentro de um envelope não é grampeada, e não possui uma ordem exata de leitura, sendo estruturada como panfletos um tanto poéticos que eventualmente circulariam numa manifestação. Por fim temos, na terceira edição chamada Potlatch, uma explosão de cores em quase murais, onde há o retorno do narrativo, mas muito mais lírico do que outrora. 
Ainda assim, com todos esses recursos, Promessas é quase um documentário, com citações de figurões do jornalismo brasileiro, referências a políticos e um esboço de estudo piscológico sobre a vida e o poder. Contudo, para mantermos algum foco aqui, o que me interessa é a obsessão da trilogia de Pedro Franz pela imagem da exceção. 
Jolly Roger é o nome que se dá aquelas bandeiras de piratas onde aparecem uma caveira e ossos cruzados. Ora, numa sociedade como a nossa rodeada de certificados oficiais, da comida aos produtos culturais que consumimos, a pirataria moderna é uma exceção que até hoje coloca em questão regras antes muito bem estabelecidas e com grande dificuldades de readaptação como vemos no recente debate interminável sobre o marco civil da internet, o comportamento dos governos e os interesses das grandes empresas e suas copyrights. De qualquer forma, para que não haja dúvidas, a pirataria de Jolly Roger, seu apelo gótico da vida na sua imagem de morte está a serviço não só da internet, mas de uma transmutação, uma vida pirateada dos modelos oficiais e em busca de outras maneiras de viver.
Outro ponto, o Potlatch é uma cerimônia praticada entre tribos indígenas, tipicamente da América do Norte, que consiste num festejo religioso de homenagem, geralmente envolvendo um banquete seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado e que devem ser entregues a parentes e amigos. Numa configuração urbana, o Potlatch se dá na situação desesperada onde num dos confrontos um manifestante acaba ferindo gravemente um policial. Buscando salvá-lo, o jovem para não ser prontamente preso ou até morto, despe o policial de sua farda, o coloca sobre um carrinho de supermercado e procura ajuda nos hospitais, sem sucesso. No final o corpo do policial é singelamente posto no mar junto do corpo exausto, magro, quase inteiramente entregue do manifestante que mergulha com o cadáver. Outra imagem de exceção do limite entre indivíduo, coletivo e do poder, como no Potlatch, aqui radicalmente redistribuído a todos os envolvidos na condição integrada de vida e morte, violência e sacrifício.
Também merece destaque a onipresença de animais, de bois, cães, galinhas, peixes e outros bichos que são ora usados claramente como metáfora do comportamento, ora como evocações a outras formas de viver. Numa leitura filosófica, o animal é aquilo que coloca em cheque a própria condição de humano. Em outras palavras, somos humanos quando conseguimos nos distinguir dos animais. Porém se essa delimitação falha, o humanismo fracassa e é aberta outras condições, da besta-fera ao além-do-humano. Ora, essa exceção à vida humana não deixa de ser o lugar de abertura da arte, daquilo que, como já dito, escapa do significado fechado – inclusive do abrangente significado que é ser humano. Pois da forma como foi posto até agora, podemos dizer com alguma segurança  que a Arte se dá no limite do humano, no ponto de um limiar não muito claro, mas rico em potencialidades.
Enfim, as imagens de exceção são muitas, simbólica ou materialmente. Deixei de lado aqui, para fins de concisão, questões como erotismo e auto-sacrifício que da mesma forma remetem ao que foi falado nos últimos parágrafos. Importa notar que Promessas de Amor de Pedro Franz incorpora às histórias em quadrinhos um modo de ser caro à Arte. Não que isso soe como uma resposta categórica à pergunta inicial. Estamos fazendo arte em quadrinhos no Brasil? Ainda não sei, porém desconfio que é essa dúvida a certeza de que ora ou outra encontramos exceções artísticas às regras quadrinizadas – e vice-versa. Afinal, nada é mais próximo à entrega artística do que as promessas de amor ao desconhecido que todos nós fazemos enquanto cotidianamente esperamos – e encontramos – o fim do mundo.
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Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo, de Pedro Franz, teve suas três edições, Limbo, Underground e Potlatch publicadas respectivamente em 2010, 11 e 12. Todas podem ser adquiridas ou baixadas de graça em Notas Sobre o Fim.