Por que estudar arte? E os quadrinhos?

Para o senso comum, é sempre desafiador entender o motivo pelo qual tantas pessoas se dedicam ao estudo da arte. Mais difícil ainda é compreender a necessidade de subsídios para museus, galerias, festivais e universidades de modo que isso aconteça. Mas afinal, de que serve o estudo da arte? Eu respondo: para nada. Exatamente isso: o estudo da arte é completamente inútil. Da arte dos quadrinhos então, nem se fala.

É preciso dar um passo atrás. Pode não parecer, mas não faz muito que deixamos de habitar cavernas. É do senso comum a ideia de que nossa evolução, nosso ponto de corte perante os animais, se deu pelo domínio de ferramentas. Ou seja, o homem e a mulher nasceram no dia em que souberam usar um pedaço de osso como um machado (lembremos do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço).

Mas essa é uma ideia muito pobre sobre a humanidade. Afinal, o uso de ferramentas atende a extensões primárias do corpo: as garras que nos faltam, os dentes afiados que não temos, a cauda protetora que perdemos. Se as ferramentas nos definissem, se fôssemos delimitados pelo utilitarismo, teríamos ainda uma vida muito próxima a da maioria dos animais. Estaríamos contentes com o necessário, construiríamos ferramentas no limite do bem-estar e, talvez, sequer teríamos uma linguagem rebuscada – afinal, a poesia muito penosamente serve à demanda de comida e bebida, sono e sexo, xixi ou cocô.

O que explica então os jogos de linguagem, o esporte, a arte, os ritos funerais, o luxo, a moda, o sexo perverso (isto é, não genital), a maioria das guerras ou até mesmo o cabelo que você penteia toda manhã? Por que diabos nossa espécie se deu ao trabalho de não só construir moradias seguras, mas de adorná-las, colori-las, embelezá-las? Por que uma vida tão exuberante? A resposta chama-se dispêndio. Esse é o pulo do gato (ou do humano): nós surgimos não exatamente quando fabricamos ferramentas (isso alguns macacos precariamente também fazem), mas quando priorizamos todo o excedente de nossa força (física, intelectual, emocional etc) para investimentos dispendiosos.

Nossa inquietude é transbordante. Considere o seguinte: nosso corpo é uma Ferrari, porém nossa necessidade é a de ir na padaria da esquina. É óbvio que com uma máquina dessas nós faremos muito mais. Tão mais que até mesmo o necessário passar na padaria muda de figura. É precisamente aqui que surge a cultura. Cabe dizer que é bobagem insistir no dualismo natureza vs. cultura. A natureza do humano é a cultura. Se o animal tem fome, o humano tem apetite (humanos com fome só reconheceríamos no estado limite do canibalismo forçado). Em outras palavras, só surge o humano quando dispendiosamente criamos – nem que seja esse negócio chamado de “humano”.

Existe um rito chamado potlatch entre os indígenas do norte do Pacífico e da América. Trata-se, a grosso modo, de uma competição: é preciso empregar enormes recursos a título perdido (dar comida, sacrificar os próprios animais, “queimar dinheiro”) de modo a exibir à tribo rival o quão poderoso se é. Por sua vez, se a tribo desafiada conseguir desperdiçar tanto quanto e ainda mais, a vitória será dela.

Coisa de selvagem, né? Então você olha para a guerra fria, com duas tribos empregando gigantescos recursos que poderiam acabar com a fome e a miséria no mundo, mas que, ao invés disso, serviu para mandar pessoas para o espaço e para a Lua. E isso sob a torcida de muitos miseráveis. Acabou que a tribo do ocidente venceu quando a do oriente não tinha como desperdiçar ainda mais recursos. Alguns dirão, “ah, mas graças a corrida espacial temos (cite aqui a tecnologia de sua preferência)”. Sim, mas sejamos honestos: os ganhos são efeitos colaterais (assim como o matar da fome diante do apetite). Mais barato (leia-se, utilitário) teria sido investir em tais tecnologias diretamente.

Essa inversão é importante: o senso comum pensa que garantimos o necessário e o que sobra é o luxo. Contudo, a rigor, é justamente o contrário. O primeiro passo do humano é sempre excessivo, como um trágico ir além do necessário. Nessa ultrapassagem a gente dá conta do necessário também, mas não porque pensamos nele primeiro, mas sim porque ele, metamorfoseado e misturado no meio de tantas outras coisas, serve à manutenção mínima do excesso. O inútil precede o útil; e só nos apoderamos do útil de modo a vitalizar o inútil. O necessário é o supérfluo primário do nosso vir-a-ser. Assim como grafitar um muro é inútil, cobri-lo de cinza igualmente o é.

Se isso soa “viagem”, em muito é porque fomos condicionados a não pensar assim. Costumamos mascarar a dispendiosidade, nos avergonharmos dela. O próprio humanismo europeu foi o projeto de tentar atribuir ao ser humano uma serventia, uma utilidade (bastante inútil diga-se de passagem, pois as complexas instituições que visam forjar o humano como um campeão cívico produz regras que só fazem sentido dentro do próprio jogo civilizatório). Da mesma forma, a formação da sociedade burguesa fez do dispêndio uma mácula. Afinal, quando a burguesia ascendeu, era preciso reter os ganhos de modo a superar a aristocracia, classe esta que exibia seu poder principalmente pelo dispêndio (basta lembrarmos do incentivo às “belas artes”). Foi daí que economizar, etimologicamente “administração da casa”, passou a ser entendido como retenção, posse de bens segurados.

Porém, continua dispendiosa a gana de colecionar dinheiro e objetos essencialmente inúteis. E hoje a alta burguesia se afirma através de carros de luxo, viagens caras, joias raras e eventualmente alguma caridade suntuosa. Engana-se, porém, quem acha que o dispêndio é só coisa de rico. Escute um funk ostentação, observe os bonés, óculos, unhas pintadas e carros tunados da periferia do Brasil que você vai entender. Ora, até os religiosos mais humildes se rendem ao dispêndio, nem que seja oferecendo sua carne e seus desejos em sacrifício a um deus. E ganha quem mais se oferece! Aliás, se pensarmos o capitalismo como uma religião, vence o burguês mão-de-vaca que mais se sacrifica em nome do capital; já no socialismo como religião, é heroificado aquele que mais se doa ao “bem comum”.

Se você ainda quer insistir num utilitarismo em todas essas tantas práticas que aqui listei, resta-nos a vontade de poder. Mas aí chegaríamos igualmente à conclusão de que o poder, para além do necessário, é também bastante inútil. E vontade não nos falta. Pelo contrário, é sempre sobra. Responda-me: para que outro mundo possível, se esse já garantiu a sobrevivência do sonho?

Em resumo, o instante único do humano surge quando este emprega sua força não para fazer um segundo e necessário machado, mas para pichar uma caverna, inventar um mito, construir um olhar. Do Homo Faber chegamos então ao Homo Ludens – ou seria o Homo Artis? Não por acaso, conforme os desenhos de animais nas cavernas passam a ser cada vez mais realistas (o que caracteriza um domínio técnico da observação e da tomada de distância), o humano passa a cada vez mais ser arbitrário, simbólico, chegando a ser indecifrável para os olhos de hoje (como a escrita de outro povo).

E daí que entra o porquê de nós estudarmos arte. É ela, mais do que a história, a cultura, a economia, ou a psicologia, o que nos recoloca sempre no ponto de recomeçar a nossa invenção. Nada é mais inútil do que a arte. Ainda que dela se faça negócio, não há absolutamente nada de necessário nela. E mesmo assim, inclusive em épocas de crise, a arte sobrevive exuberantemente; já nas ditaduras, mesmo quando impopular ou mesmo pouco influente, costuma ser combatida e controlada pelo regime. Estudar arte é dar atenção ao eterno retorno do instante decisivo em que se cria o humano – e as oportunidades para superá-lo.

E os quadrinhos?

Bem, eles não fogem a isso. Contudo, sua dispendiosidade é bastante particular. É isso que inutilmente procurarei mostrar nesse blog daqui em diante. Se a arte é o tempo da nossa invenção, que sujeitos quadrinizados estamos dispostos a inventar?


Algumas referências para quem quer se aprofundar nisso. Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss; A noção de dispêndio, e Lascaux, O nascimento da arte, de Georges Bataille; A origem da obra de arte, de Martin Heidegger; Homo Ludens, de Johan Huizinga; O gesto e a palavra, de Andre Leroi-Gourhan. Uma HQ? Here (Aqui), de Richard McGuire. Outra? Potlatch, de Pedro Franz. Qualquer coisa do Kirby também dá conta.

  • Reginaldo Osnildo

    Show!

  • Mauricio Zanolini

    Parabéns pelo texto denso! Essa discussão é difícil, mas a inversão de ponto de vista é fundamental pra ampliar o olhar da galera sobre o mundo e a experiência humana. Aguardo seus próximos textos!

    • Obrigado. Toda semana sai pelo menos um (espero!).

  • Alan Cichela

    Parabéns pelo retorno soberbo as palavras aqui! (Que sacrifício pra comentar aqui!)

    • Valeu Alan. Foi difícil, é? Não era pra ser… :/

      • Alan Cichela

        Na verdade não, só não esperava ter que ir e voltar duas vezes no e-mail para confirmar que eu não sou um robô, relaxa. Foi uma boa introdução e volta (revolta?) aos quadrinhos, quero ver as sequências! Abraços