Old Boy – não é pela vingança, apenas solidão

Old Boy é um mangá escrito por Garon Tsuchiya e com arte de Nobuaki Minegishi. Saiu no Japão entre 1996 e 98. Acabou se tornando famoso no ocidente pela aclamada adaptação cinematográfica coreana, lançada em 2003 e dirigida por Park Chan-wook. Dez anos depois, sairia também uma adaptação americana, desta vez por Spike Lee. A sinopse se repete: um cara é repentinamente preso numa cela sem saber o motivo e tendo somente acesso à televisão. Anos depois ele é solto, sai de dentro de uma mala (como que renascido), e precisa se envolver num jogo para descobrir quem o prendeu e por qual motivo. Só então ele terá sua vingança. Enfim, tô fazendo meu parco papel de jornalista apenas pra colocar algo bem simples: o mangá foi lido pelo ocidente sob um olhar viciado. Nos EUA ele só saiu depois do primeiro filme, no Brasil durante o lançamento do segundo.
Sem choro, ocorrerá um estupro de spoilers

Muito se fala de Old Boy ser uma narrativa de vingança. De fato os filmes batem nessa tecla. Porém quando lemos  o mangá, que tem a seu favor uma estória muito mais longa e desenvolvida calmamente nas mais de 1600 páginas, a vingança vai para a segunda ou terceira camada. É sobre a solidão, a mais terrível e, ao mesmo tempo, fortificante solidão que Old Boy nos conta. 

Comecemos pelo fim. O protagonista que ficou 10 anos presos (no filme coreano 15, no americano 20) não tem filha. Sim, o polêmico final incestuoso não existe no mangá. Mas a coisa é mais enrolada. Gotou, o protagonista, era um cara popular, como nos filmes, mas o mangá traz uma importante diferença: Gotou jamais se sentiu confortável sendo assim. Ele era daqueles raros caras que todo mundo gosta, que é bonito, altivo, de poucas palavras, mas que jamais pareceu gostar muito ou se esforçou pela popularidade. Isso explicaria porque ele aguentou ficar dez anos trancados numa cela que no mangá é ainda menor e cinzenta.

Quando Gotou é solto, completamente em forma, centrado e sob controle de suas emoções, ele causa a revolta do seu inimigo, o bilionário Kakinuma. “Ele ainda carrega a aura”, diz o homem que aprisionou Gotou por dez anos. Ao longo do mangá, com a importante participação de Yukio Kusama, ex-professora de ambos na infância, e hoje escritora, descobrimos que Kakinuma também fora sempre solitário. Mais do que isso, havia algo de quase sobrenatural nele. Já na época a professora se sentiria intrigada tanto por Kakinuma quanto por Gotou. Mais do que a solidão, havia em ambos um mistério decorrente dela.

Mas Gotou sequer se lembrava de Kakinuma. A descoberta de sua identidade e dos motivos para tamanho ódio necessitou de uma jornada à memória, à lembranças afetadas pela hipnose usada contra Gotou e seus aliados. Diferentemente dos filmes, os motivos do antagonista são muito mais abstratos. Eis a revelação: na infância, durante a aula de música, Kakinuma se esforçou para cantar enquanto todos os colegas riam dele. Isso não era problema. Kakinuma estava acostumado a ser solitário e isso o fortalecia, fazia ele se sentir forte, especial. Mas Gotou foi o único a não rir. O pior, segundo Kakinuma, Gotou deixou escorrer uma lágrima. Foi esse gesto de compaixão, de exposição da solidão em toda sua fraqueza que fez Kakinuma perceber, ainda jovem, o seu fracasso. “Foi uma humilhação… Jamais irei te perdoar”. 

O bilionário ressentido, e um tanto entediado, planejou então um cuidadoso experimento para quebrar um homem. Mas não deu certo. E assim como nos filmes, ao final Kakinuma se mata diante de Gotou. Porém não acaba aí. Da mesma forma que no cinema, existe uma jovem mulher, Eri, que se aproxima de Gotou e se torna seu par romântico. Há algo de incestuoso na relação dos dois. Eri é muito nova e chama Gotou de “tio”, para, no último quadrinho, chamá-lo de “papai”. Ao longo da trama os personagens acreditam que Eri foi hipnotizada para se aproximar de Gotou e ambos provocados a se envolverem de modo que o protagonista tivesse alguém que Kakinuma pudesse ameaçar – ou seja, alguém que pudesse afetá-lo em sua solidão. Mas o mangá termina sem que eles descubram exatamente o que foi ordenado a Eri quando hipnotizada. 
É a única ponta solta, e que se reabre quando meses depois Gotou e Eri, aparentemente casados, recebem uma estranha encomenda que toca a música cantada por Kakinuma no passado. Algo sinistro parece despertar em Eri. Ele se lança para a morte do alto de um prédio e Gotou desperta apavorado. Mas Eri está ao seu lado, era só um pesadelo. Ou não? Gotou termina o mangá convicto que a guerra iniciada com Kakinuma não acabou com sua morte.
É de se pensar que a equipe de roteiristas do filme coreano viu nesse estranho final o gatilho para considerar Eri como a filha esquecida de Gotou, acrescentando todo o drama sobre incesto, morte e amor que os filmes se prestam. Mas o fato é que o mangá, ao apelar simplesmente para estranheza em suas últimas páginas, nos deixa com uma sensação terrível, um desconforto típico do despertar de um pesadelo que tocou em emoções reais. 
Old Boy, o mangá, acaba sendo uma radiografia da solidão – ainda que a vingança também esteja lá, assim como alguns sutis conflitos de classe entre ricos especuladores da bolha econômica dos anos 90 e os trabalhadores braçais empobrecidos. Uma característica marcante da HQ – a infinidade de closes, que inclusive acabam se perpetuando nas capas – tem o efeito de ser a tradução gráfica por excelência desta solidão. O rosto confinado no quadro, o retrato que pela expressão nos diz algo mas não diz tudo. Elementos que nos lembram da incomunicabilidade da solidão. Sozinhos estamos nós leitores, cheio de dúvidas e com uma esquisita desconfiança.

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Old Boy saiu completo no Brasil em 8 volumes pela editora Nova Sampa entre 2013 e 14.

E os filmes, caso ainda não tenham visto…