A obra de arte Laerte

Na era virtual, cada vez mais difícil é distinguir entre vida e obra. O esforço da teoria literária francesa do final dos anos 1960 se torna cada dia mais desafiador. Soa ultrajante nos dias de hoje dizer que o autor não é sinônimo de autoridade, e, portanto, que o leitor deve se responsabilizar por sua leitura. O que uns dez anos atrás parecia garantido hoje encontra fortes resistências. O que mudou? A consolidação do mercado das identidades: Google, Facebook e todo site que “cobra nada” de você, apenas quer seus dados pessoais.

Antes deles, o leitor se deteria na obra do filósofo, cientista ou artista, na certeza de que 1) é nisso que ele tem a contribuir, e 2) ele é um completo estranho que só surge pelo rastro de sua obra, isto é, a obra é quem inventa o autor. Por isso, julgar o autor como pessoa seria no mínimo uma petulância, na medida em que qualquer saber constituído sobre ele se afirma por uma vivência que sempre falta, que se dá à distância. Ainda que façam reportagens, entrevistas e biografias, o autor é alguém que está eternamente prestes a ser assassinado, uma pessoa que está sempre saindo de cena para que a sua produção aconteça para além dele. Do autor mesmo, só resta o gesto de ter estado ali, de passagem.

Porém, com a positividade das identidades que o mercado da informação impôs, o leitor se deixou levar por uma lógica comum às colunas de opinião dos jornais impressos. O autor não só voltou a ser autoridade, como a responsabilidade da leitura passou a ser dele. Se a interpretação leva a caminhos perigosos, a culpa passa a ser do autor que não clarificou as contra-indicações. Da mesma forma, se o autor em sua vida foi marxista, católico, tarado, pai ausente, caloteiro ou amigo de político sacana, sua obra passa a ser julgada por isso. Da politização da leitura fomos então para a moralização do autor. E a transição disso se explica pela positivação da identidade.

O fato é que o vigilantismo das identidades, típico da época de fotos de perfil, avança violentamente contra qualquer anonimato. Não por acaso a política, da direita à esquerda, caminhou para essas mesmas questões (do retorno ao nacionalismo às causas identitárias-minoritárias). Por sua vez, a arte sintomatizou no mascarado, na identidade secreta, uma subversão (de V de Vingança à Guerra Civil Marvel). E surge, no mundo todo, reações cada vez mais duras contra pessoas mascaradas em público (pensemos na perseguição contra mulheres muçulmanas, ou mesmo o fato de muitos acharem proporcional que manifestantes mascarados sejam feridos gravemente, por exemplo). A lógica de nossa sociedade é: seja “livre”, desde que você seja identificado, e o que você faz ou fará, previsto.

Considerando que a arte é exceção, o que não se encaixa no utilitarismo da sociedade, fazer dela uma produção inofensiva perante a obrigação moral dos autores é uma forma de enquadrar a arte na regra geral de vigilância das identidades.

Daí que Laerte se torna potência.

Poderíamos apenas nos deter na sua grande obra, no brilhantismo que ela alcança nos anos 1980 e 90 pela Circo Editorial até a sua reinvenção poética em Manual do Minotauro de 2008 em diante, para figurar Laerte como uma das maiores quadrinistas do Brasil. Contudo, Laerte também é obra de arte.

Nietzsche já anunciava, com seu super-homem (homem superado, além-do-homem), que o homem deixaria de ser artista e se tornaria obra de arte. Tratava-se de uma condição em devir, quando o humanismo poderia, enfim, ser abandonado, e cada pessoa, cada vivente, explodiria em criatividade, em excepcionalidade artística. Essa superação não seria cronológica, pobremente evolucionista (conforme equivocadamente entenderam os nazistas). O além-do-homem não tem hora marcada: ele está por vir e talvez já veio. A todo momento, em cada gesto, há a oportunidade fugaz de um super-homem acontecer por meio de nós.

Com isso, Nietzsche mandava um recado desaforado a Platão: sabe aquela parada de que nós somos cópias de modelos ideais? Dane-se o ideal! Eu não sou cópia de ninguém, muito menos do que o humanismo espera de mim. Que seja bem-vindo, portanto, a era dos simulacros. O simulacro, antes sinônimo de falsidade para Platão, torna-se então a afirmação da diferença, da singularidade-pluralidade.

Filósofas feministas contemporâneas como Judith Butler e Rosi Braidotti se interessariam por isso. Afinal, a estética queer, levada até às últimas consequências, é a busca por um corpo sensível do além-do-homem, um corpo em que o seu gênero não se dá mais como cópia de um sexo idealizado. Ao contrário do que os opositores da identidade de gênero pensam, isso não se dá de forma pacífica. Não há binarismo entre determinismo biológico vs. determinismo sócio-cultural, mas sim um processo assumidamente criativo, artístico, de invenção tumultuosa da própria sensibilidade diante do Outro (a natureza, a cultura etc).

Isso, contudo, não quer dizer que todo transgênero faz do seu corpo uma obra de arte. Poucos suportam – ou mesmo querem – tamanho devir. Porém Laerte traça essa página com desenvoltura (fazendo o que, antes dela, Harvey Pekar fazia, não sendo uma mera coincidência que foi Laerte a primeira tradutora de Pekar no Brasil). Evidentemente, não estou falando do indivíduo de Laerte, nem mesmo de suas intenções. Sequer a conheço pessoalmente. Falo do corpo da imagem, do quadro como um todo onde Laerte se dá como força envolvente . Inserida nessa lógica policialesca de identidades, Laerte e seus quadrinhos operam um golpe. Suas HQs, assim como a condição queer, são constantemente sobre corpos em devir. Não há ser, não há “isto é”, mas um constante “isto pode vir a ser”.

Para nos atermos a uma HQ, recomendo Modelo Vivo, coletânea editada pelo recém-falecido e importante figura dos quadrinhos brasileiros, Toninho Mendes. Nela se evidencia no passado de Laerte algo já patente no Manual do Minotauro: a poética da mudança. Porém, não a mudança romântica, que faz, em um passe de mágica, o sapo virar príncipe. Mas sim aquela que está ainda em processo, prendendo-se no momento em que aquele corpo não é mais exatamente um sapo, mas também não é um príncipe ainda. Isso faz surgir corpos impermanentes, que deslocam partes, causam estranhamento, mesmo que bem-humorado.

Por isso, com Laerte, não se trata mais de vida e obra, mas de obra de vida, de vida obrada ou mesmo desobrada. Aliás, sequer cabe Laerte e seus quadrinhos. Estamos falando de uma Laerte quadrinizada, ou de um quadrinho laertizado. Essência e aparência se perdem em indistinção no corpo da imagem criativa.

Daí que ódio e o fascínio midiático por Laerte-quadrinhos seja um sintoma desse desconforto e inquietude. Obviamente, existem os investimentos de domesticação. Será que o documentário Laerte-se pela Netflix irá por essa direção? Delimitarão o devir de sua obra para relegá-lo ao ser, isto é, a mera identidade do “simplesmente quadrinhos feito por uma transgênero”? Já há investimentos nesse sentido, muitas vezes da própria militância, sem perceber o quanto isso é tributário ao platonismo enfraquecedor.

Não há corpo mais indócil do que aquele que, em imagem, diz: “não há espelho que dê conta”.

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Modelo Vivo saiu pelo selo Barricada da editora Boitempo em 2016. Além de trazer quadrinhos antigos de Laerte, traz também nus que ela pintou em 2013. Já Manual do Minotauro você pode conferir no link: http://manualdominotauro.blogspot.com.br/

  • Alan Cichela

    Que terreno caudaloso, falar da Laerte, sem cair naqueles achismos que vemos todos os dias sobre ela. Sou tão fã dela que, talvez só liberando essa sandice enlouquecida pela obra poderia dar conta de perceber onde você está afim de chegar nesse post, quase uma P.A. Sabe que tenho um apreço pelos teus escritos, a sinceridade clínica e as palavras usadas em aconchego, mas hoje tu se superou cara. Me lembrei imediatamente da carta que escrevi para ele a anos atrás, que provavelmente nunca chegou, dos e-mails que trocamos depois e senti que finalmente alguém foi honesto com a obra desse gênio. Você tocou num ponto que consolida Guy Debord nessa enxurrada midiática em torno dele sendo ela, mostrando que o verdadeiro triunfo da Laerte não é a exposição de si, mas a vida como obra de arte, numa força Nietzschiana sem tamanho para ser o que se é em um mundo de espelhos. É isso. Abraços

  • Anderson Do Rosário

    Ótimo texto. Espero que ela leia.