O voo mentiroso de Birdman

Birdman, de Alejandro Iñarritu, é o sintoma já institucionalizado de algo que vem ruindo pouco a pouco. Falo sobre a distinção entre Alta e Baixa cultura, daquilo que divide Riggan Thomson e separa a celebridade que fez o super-herói Birdman do artista que se apresentará na Broadway. 
Em 1964, Umberto Eco publicaria seu (hoje ligeiramente caduco) Apocalípticos e Integrados. Eco tentaria redigir, no bom sentido, uma visão de cima do muro. Tratava-se de ver do alto, de olhar para os terrenos divididos, de fazer uma geografia da Alta e Baixa cultura. Evidentemente os quadrinhos estavam do lado da Baixa. Em certo momento Eco dirá que, apesar de certas potencialidades, não devemos conferir aos objetos da Baixa cultura uma riqueza que eles em essência não tem.  

O que complica é esse pressuposto da essência. Como é possível postular uma essência da arte sofisticada? Isso nos remete a uma distinção conceitual antiga e importantíssima: a diferença entre qualidade e potência. A qualidade é o atributo fechado, a característica já delegada por convenção (Joyce ou Picasso são bons porque são bons), a potência é abertura, poder-vir-a-ser, é quando o olhar de alguém mostra para nós uma riqueza (ou uma pobreza) que você não tinha percebido em determinado objeto (Joyce ou Picasso podem ou não ser ricos se você considerar isto, ou aquilo, ou aquele outro).
A distinção entre Alta e Baixa cultura, historicamente, nunca pensou a arte por sua potência, apenas por sua qualidade, pela convenção, pelo pré-conceito que categoriza e arregimenta tudo. Isso explicaria em partes o porquê da invisibilidade dos quadrinhos, uma arte recursivamente sofisticada ao lidar com sequencialidade e simultaneidade, texto e imagem, figuração e narrativa, quadro e grade. 
O que estava em jogo, portanto, era garantir boas cópias de um ideal de arte (de uma essência que alguém ou algum grupo se dá o direito de imbuir, como a crítica de Birdman), e a reclusão dos simulacros, dos objetos que pervertem os ideais a serem defendidos (como no delírio onde Homem-Aranha, Homem de Ferro, Transformers e outras “aberrações” carnavalescas aparecem brincando no palco da Broadway).
É a ruína das qualidades que, em potência, Birdman aponta. Algo que, no caso dos quadrinhos, na mesma década em que Umberto Eco escrevia, acontecia pelo movimento underground, pelos álbuns de luxo, pela busca por uma autoria caligráfica, pelas exposições, pela crítica acadêmica etc. Magritte certa vez disse que se aprofundar nos segredos da invisibilidade é o mais fácil. O difícil é perceber o que jaz de oculto no visível, o que a aparência exibe da forma mais mentirosa. 
Todos nós praticamos a mentira do visível. Fingimos que aprendemos diante de um professor que finge que ensina, elegemos o político que fingimos acreditar e que finge que nós não sabemos de sua sujeira, assim como  recriminamos, em nome de certos ideais, uma série de comportamentos que fingimos não ter quando ninguém está olhando. 
Todos usamos máscaras, só que a máscara, como no teatro grego, não é algo que esconde, mas que revela. É a máscara de ataduras no rosto de Riggan Thomson, a máscara insistente de Birdman mesmo quando Riggan é considerando um grande ator. É a revelação de que tudo não passa de um simulacro, e que as pretensões mais verdadeiras só são verdadeiras quando assumem que estão sempre mentindo. 
Em outras palavras, é quando a Alta cultura exibe a sua máscara espalhafatosa de super-herói, mostrando também que todo seu requinte é só uma tentativa de impressionar, que a mentira se torna a maior das verdades. É como na cena do poeta boêmio que deixa Riggan comovido até ele descobrir que o cara era um ator querendo um papel na peça. Um mentiroso que nos emociona, afinal. Esta é a ética do ator elevada à exuberância, de tal modo que perante a arte na queda das qualidades, na indistinção essencial entre Alta e Baixa cultura, nos cabe dar asas à potencialidade dos simulacros que saem voando por aí. Birdman é voo da arte, o voo mentiroso de todos nós.