Multilinearidade e subjetivação – os quadrinhos de Chris Ware

É um tanto consensual que Chris Ware é um dos maiores quadrinistas contemporâneos. Como artista, sua obra transita para além dos quadrinhos, sendo exposta em galerias, museus e bem recebida pelo mundo da arte. Ware é da geração de autores que passaram pela revista oitentista Raw, de Art Spiegelman e Françoise Mouly. Dela, herdou a ética aristocrática, o princípio que os quadrinhos são uma forma elevada de arte sem que os outros tenham que dar o aval para isso. Deste modo, não cabe perder tempo com panfletos, pedagogismos ou ressentimentos, e sim aproveitar ao máximo o potencial que a arte dos quadrinhos tem a oferecer. Lynda Barry, Charles Burns, Richard McGuire, Gary Panter e o próprio Ware são alguns desses artistas que até hoje se fazem sentir por essa postura.

Para muitos leitores e teóricos dos quadrinhos, Chris Ware é um grande artista da nostalgia. Alguém que soube reaproveitar Robert Crumb, fazendo das nossas queridas imagens de infância a antessala da completa selvageria imaginativa. Com a diferença, é claro, de nos conduzir para o mundo da intimidade, da alegria fugaz e da melancolia de estar vivo. Esse viés de leitura é um tanto empobrecedor e injusto. Empobrecedor porque recai apenas em parciais aspectos visuais, tendendo a ver Ware apenas como um saudoso de Frank King, George Herriman, Cliff Sterrett e Winsor McCay, ou mesmo como um Joost Swarte reciclado, alguém capaz de articular a linha clara de Hergé com uma temática adulta. Injusto porque, se nos livrarmos do olhar paternalista sobre os quadrinhos, essa pecha de “arte da nossa infância”, veremos que há pouco ou quase nada de nostálgico em Chris Ware (e cá entre nós, mestre da nostalgia, hoje, é o canadense Seth).

Mas, afinal, qual é a força dos quadrinhos de Ware? Chamo atenção para dois aspectos: a multilinearidade e a subjetivação.

A multilinearidade já se tornou sua marca registrada. A página é composta de tal modo que a linha de leitura dificilmente é única. Ou seja, para além da sequência esquerda para a direita/cima para baixo, é permitido seguir outras sucessões possíveis de quadros. Ware sabe usar a seu favor a simultaneidade dos quadrinhos, mas ao contrário de autores sessentistas (Moebius, Druillet, Crepax, Maroto), não dá a essa dimensão um convite contemplativo tão intenso. A simultaneidade que interessa é apenas a da múltipla linha de leitura. Ou seja, o caráter simultâneo está lá, é essencial, mas é pura discrição, eterno recuo para que a sequencialidade se insista nas tantas linhas de leitura que acontecem ao mesmo tempo.

Contudo, a multilinearidade seria pouco mais do que uma mera curiosidade, uma brincadeira formal, se não fosse a subjetivação que também depende dela. Os melancólicos personagens de Ware fazem mais que organizar a multiplicidade de sequências que deles se originam. Eles não são pontos fixos, substâncias (como seria um super-herói, por exemplo), mas, sim, pontos de vista desdobrados por séries (sequências de leitura) que a todo tempo negam qualquer mundo objetivo (pela múltipla sequência, pelo afeto) e devolvem-nos a essa intimidade absoluta (esse mesmo ponto de vista). Ou seja, ao forçar uma subjetivação seriada, incessante, Ware faz do ponto de vista do personagem também o nosso. Sem isso, sequer começamos a ler uma HQ sua (basta observar: quem não gosta de sua arte, esbarra justamente nesse obstáculo barroco).

Em Jimmy Corrigan, O Menino Mais Esperto do Mundo, seriado de 1995 a 2000, quando foi publicado em livro nos EUA (no Brasil sairia em 2009), Ware já mostrava maestria na articulação da multilinearidade com a subjetivação nos quadrinhos. Porém, foi com Building Stories, em 2012, que ele parece ter alcançado algo dificílimo de superar. A multilinearidade começa na materialidade. Resultado de uma década de trabalho, Building Stories é uma caixa com quatorze quadrinhos (tirinhas, jornais, folhetos, livros de recordação, tabuleiro), sem qualquer ordem de leitura. Apesar de algumas HQs se centrarem em personagens secundários, a maioria é sobre diferentes momentos na vida de uma mulher que nunca sabemos o nome. Tanto o fato de ela não ter nome revelado quanto o de não haver uma única linha de leitura são sintomáticos.

Eis a estética de Ware: a produção de um ponto de vista inominado, não demarcado por uma linearidade de leitura, seja na página, seja na revista, e que apesar de caracterizado por um personagem, exige de nós, como leitores, que seja também nosso na medida em que nós escolhemos a sequência a seguir. Somos pontos de vista em série. Um processo que força uma experiência radical de interioridade e o resultado não poderia ser outro senão um sorriso, um suspiro, uma lágrima…

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Jimmy Corrigan, O Menino Mais Esperto do Mundo, saiu pela Cia. das Letras no Brasil. Já Building Stories não. Dada as complexidades da edição, infelizmente acho difícil que algum dia seja traduzida por aqui.