Monster parte 1 – porque toda criança é um Monstro

Ainda no século XIX, Max und Moritz, de Wilhem Busch – para muitos, uma das primeiras histórias em quadrinhos – contava as travessuras de dois meninos incorrigíveis que no final acabavam se dando terrivelmente mal. No Brasil essa história se chamaria Juca e Chico e seria traduzida por Olavo Bilac. Tal narrativa, a da criança mal-criada que acaba em apuros, é um recurso antigo. Acho que desde a invenção da linguagem os adultos que queriam preservar suas crias contavam histórias assustadoras para que elas andassem na linha. Ainda hoje é assim. Porém é notório o sentido contrário. Ou seja, histórias de crianças mal-criadas que assustam os adultos. No cinema, de Os Inocentes, de 1961, a Precisamos Falar Sobre o Kevin, de 2012, o que assistimos é uma crescente poética da criança maldita. Não por acaso os três grandes filmes demoníacos do cinema hollywoodiano dos anos 1960 e 70 – O Bebê de Rosemary, O Exorcista e A Profecia – se relacionavam com a infância. É de se perguntar o porquê disso.

Uma hipótese plausível é o fato de que nunca investimos tanto nas crianças. Ainda que muitas vezes isso fique apenas no terreno das leis, hoje é assegurado ao infante o acesso à educação e à saúde, gozando de liberdade e primazia da proteção social, de modo a não tolerarmos o trabalho infantil, o abuso sexual ou psicológico. Por isso, quando, apesar disso tudo, apesar de todas os cuidados aplicados, a criança se torna um monstro, a explicação só encontra abrigo no sobrenatural. De certa forma, a criança demoníaca é a metáfora para o psicopata infantil que, crescido num lar de cuidado e zelo, parece jamais corresponder a esses valores. Essa mesma hipótese também explica nosso pânico por crimes cometidos por crianças em situação de risco. Afinal, a mesma crença que aposta na criança “salva” por meio da vigilância das instituições (família e estado), também sustenta a “perdição” do infante quando nascido e crescido em ambientes “desestruturados”.

Em resumo: quando a criança, nosso maior objeto de cuidado, falha, a humanidade falha junto. O fracasso da criança é o nosso fracasso, é a civilização diante do horror da perda de suas certezas, de sua identidade. Não é de se estranhar então que as ficções procurem dar imagens a esse nosso horror. Um exemplo notável é o mangá Monster de Naoki Urasawa.

Publicado em 18 volumes no Brasil, Monster conta a história do médico Kenzo Tenma, um japonês que vive na Alemanha Ocidental dos anos 1980. Sendo um dos neurocirurgiões mais habilidosos (e mais jovens) do mundo, Tenma é quem, por iniciativa própria, resolve cuidar do caso do menino Johan Liebert, em coma com uma bala alojada no crânio. A história é apavorante: uma família proeminente, fugida do lado oriental, se muda para o ocidental com seus dois filhos gêmeos, Johan e Anna Liebert. Certa noite o casal é brutalmente assassinado, Johan leva um tiro na cabeça e Anna, apesar de ilesa, fica em estado de choque. Tenma consegue salvar o menino. Porém o que se sucede é o sumiço dos gêmeos e um rastro de morte dos funcionários do hospital. A história então pula aproximadamente uma década, para logo descobrirmos o que guiará toda a trama: Johan é um monstro, desde sua infância ele tem matado pessoas de todo tipo, cumprindo um plano obscuro e grandioso. E ele só está vivo, saudável e adulto, graças a Tenma, que incriminado por Johan e consumido pela culpa, abandona tudo em nome de uma cruzada pelo assassinato do Monstro.

Johan desde criança fora demoníaco. Durante todo o mangá fica a sugestão de que ele é o anti-cristo, e que passo a passo está conduzindo a humanidade para a sua ruína. Porém não espere os exageros estereotipados dos mangás de seres mágicos e grandes confrontos. Em Monster tudo opera na sutileza ou na crueldade seca do mundo. Há corrupção, tramoias políticas, sonhos destruídos, enorme solidão e horror. E é nesse mundo que Tenma, Anna e tantos outros coadjuvantes vão se esforçar para continuarem humanos, de modo a não perderem sua identidade perante o mal no estado puro encarnado na corrupção de uma única criança. Por isso, no nosso imaginário, toda criança é um monstro potencial. A inocência estimula essa ideia. Afinal, uma criança inocente, se não compreende o mal, também não compreende o bem. Portanto, o que a impedirá de matar alguém como se fosse uma simples brincadeira?

Essa aura, inocente e demoníaca, Naoki Urasawa explora com virtuose. Johan, seja criança, seja adulto, possui o olhar suplicante para o vazio como o de tantas imagens cristãs de Jesus, Maria e seus santos. Seria o vazio o inominado, o sem-nome de uma vida infantil sem sentido? A resposta para isso continua na próxima leitura – em breve.


Monster saiu originalmente no Japão entre 1994 e 2001. No Brasil a editora Conrad começou sua publicação em 2006, encerrando em 2008 sem concluir a série. Em 2012, a editora Panini então assumiria o mangá, recomeçando a série e finalmente a concluindo em 2015.

  • Anderson Do Rosário

    eu tenho medo de crianças.

    • E dá aula para elas? Bem, tá explicado. 😛

  • Djonatha Geremias

    Algo que me chamou a atenção na trama do Monster é a ideia subjetiva de destino se contrapondo às ideias objetivas de justiça e injustiça, logo nos primeiros acontecimentos. O fato de uma atitude “certa” desencadear um resultado horroroso coloca o ser humano diante de um confronto pessoal a respeito da própria ética que, em tese, jamais deveria ser necessário. Sou o causador, mas não sou o culpado, porém, ainda assim sou o responsável.

    No caso do Tenma, não teria ele sido o “monstro” se tivesse deixado o diabinho morrer? O legal é que ele pensa pouco a respeito dos “e se”, apesar de ser assombrado por eles de diversas formas em diferentes momentos, e se concentra nos “e agora?”, o diferenciando enquanto protagonista. Porém, quantos de nós, reles seres, continuamos nos matando e nos culpando por destinos injustos, nos tornando nossos próprios monstros?

    Esses destinos e culpas muitas vezes estão enraizados nas memórias da nossa infância, e só um adulto que tem acesso a elas e da natural maldade potencial que tinha na época é capaz de temer (ainda que em um nível subconsciente só estimulado por histórias) outra criança – ou seja, todos nós.

    • Fomos por caminhos parecidos. Eu bati na tecla da criança como espelho da identidade social, tu fostes em direção da criança como espelho da memória resignada.

      Quanto ao Tenma ser o protagonista, o segundo (e último) texto sobre o Monster falará mais sobre isso. 😉