Klaus na aventura de ser humano

A força da arte é difícil de definir. Não por acaso é a forma, o critério formal, que o senso comum muitas vezes se agarra na hora de estabelecer o que é e o que não é bom na arte. Mas qualquer distinção formal também é capenga, fraqueja em nos responder coisas simples. Por exemplo: por que Klaus, de Felipe Nunes, é tão bom? Vamos aos critérios formais: 
É uma estória consistente sobre um mundo civilizado por animais. Tudo é praticamente idêntico ao mundo dos humanos, seja em hábitos, valores ou vestes. Porém, o que se difere de qualquer outra HQ habitada por seres antropomórficos é que os humanos igualmente existem, ainda que distantes, num mundo diferente.

A narrativa também é precisa. Klaus é um menino de 7 anos, humano, que cresceu criado por tigres e que não sabe que é humano. Quer dizer, não sabia. A professora-pássaro planta a dúvida, outros detalhes surgem e Klaus se vê diante da surpreendente revelação de que ele não é um tigre e seus pais felinos mentiram sobre algo gravíssimo.
Por fim, os desenhos seguem à risca toda a firmeza do roteiro. A grade tradicional, de quadrinhos separados por uma sarjeta, dá a sustentação para um jogo de sombras dinâmico. Mais emocionais do que lógicas, as sombras nesse mundo em preto e branco dão densidade, fortalecem a expressividade cartunesca de modo a não ceder de graça ao “fofinho”, ainda que o traço possa ter esse perfil.
Mas nada disso, conforme escrevo, parece traduzir a força da HQ. Algo me escapa. Porém arrisco algumas ideias. Uma delas é que Klaus é a história do nascimento do humano. Não aquela história de muitos anos atrás, e sim do nascimento do humano incessante, dos momentos em que, seja criança, seja adulto, nós precisamos considerar (e com isso tomar decisões) o que é ser um humano. 
Na HQ essa pergunta vem pelo caráter exploratório. O humano é o investigador supremo, aquele que, diante do eterno estresse de possuir uma consciência, faz perguntas de todo tipo. Em outras palavras, é só quando partimos para explorar o mundo, e com isso pôr em cheque nosso olhar sobre ele, que nos tornamos verdadeiramente humanos. Ser humano é uma aventura? Isso Klaus reitera, seja a professora explicando os humanos como exploradores aventureiros, seja a capa da HQ com Klaus seguindo um mapa do meio da floresta.
Porém, se ser humano é um comportamento pontual, e não uma essência fixa, o ser animal parece seguir o mesmo caminho. Com uma diferença, contudo. É essa diferença que Klaus parte para descobrir. Afinal, os pais adotivos tigres, altamente civilizados, ainda são animais, e existe algo que os distingue para além da raça, algo que tem a ver com possuir um mundo ou outro. Ainda assim, a intersecção é inevitável. Por isso é altamente bonita e poética a passagem em que Klaus vai explorar o mundo dos humanos. Neste momento da HQ não vemos mais seu rosto, porém o texto que segue é de sua mãe tigresa dando seu relato sobre Klaus, a ponto de outro animal dizer “pelo o que a senhora descreve ele parece ser um tigre de ouro.”. 
O menino tigre ou tigre menino, que com sua aventura nos lança singelamente para os confins da identidade, é o nosso nascimento, nosso reencontro abstrato consigo mesmo. Arte de uma força incrível!
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Klaus, de Felipe Nunes, saiu no finalzinho de 2014 pela editora Balão. Uma edição de acabamento bacana que ainda pode ser facilmente adquirida aqui.