Hermínia, sobre o fim dos tempos

Hollywood nos vendeu uma imagem do fim dos tempos: há destruição, tumulto e morte. Por mais que pareça lógico (e divertido), é uma imagem ruim. O fim dos tempos não é o clímax, não é o fim da narrativa humana, mas a sua suspensão. Isto é, o fim dos tempos é o tempo que se subtrai à cronologia, é o tempo do intervalo, da interrupção, o tempo fora do tempo. Os gregos antigos tinham um nome para isso: kairós, o momento crítico, o tempo oportuno. Um tempo kairológico é, portanto, o tempo em que a qualidade se destaca e se descola da quantificação cronológica.

Tudo isso pode parecer muito abstrato – mas ainda bem que existe a arte, essa maquininha capaz de dar formas ao sensível. Essa estética do kairós aparece intensamente no trabalho do quadrinista Diego Sanchez. Em 2013 ele lançou, de forma independente, Perpetuum Mobile. A história de mais de 170 páginas acompanha Martín, um jovem adulto na cidade de San Juarez, vizinha da tumultuada e em plena guerra civil El Camino. Com o anseio de viver de sua arte, Martín se vê em eterno perambular entre amigos entediados, mulheres problemáticas e empregos insatisfatórios.

San Juarez e El Camino podem estar no Brasil, ou na Argentina, ou na fronteira entre o México e os EUA. Pouco importa. O mais significante é a materialização de um mundo que, diante do fim, impulsiona seus cidadãos a um eterno vaguear de modas, ritos, funções sociais e emoções. O começo da HQ, que elucubra sobre o sentido da vida e logo depois apresenta uma explosão atômica, dá a tônica de toda a deriva que é a vida de Martín. O protagonista demonstra um olhar crítico perante esse “tocar a vida”, mas ao mesmo tempo vivencia o fracasso toda vez que tenta tomar as rédeas do tempo. A jornada de Martín para o deserto é um bom exemplo: ao contrário de qualquer espiritualismo romântico, o encontro com a solidão desértica se mostra tedioso, sem graça e ridículo.

Já em Hermínia, HQ de 2015 de Diego Sanchez, esse mundo se repete, mas com consideráveis mudanças. Ganha em profundidade quando opta pela simplicidade. Em Perpetuum Mobile há uma narrativa vai-e-vem, forçando o leitor a brincar de quebra-cabeças e decifrar linhas do tempo (ou mesmo a significância dos sofisticados símbolos insistentes na história). Essa confusão fica de fora em Hermínia, que possui uma trama simples: a relação entre Arcádio e Hermínia fugindo de uma névoa mortal. Justamente por essa economia de detalhes, Hermínia, muito mais que Perpetuum Mobile, consegue fazer pesar os gestos, as pequenas frases, os silêncios, as brigas e as transas do casal em jornada pelo fim dos tempos.

A tal névoa em questão, capaz de dissolver consciências e abstrair essências, é o gatilho para os dois personagens se colocarem nessa condição intervalar onde suas vidas prévias perderam o sentido e o futuro não se mostra mais como uma projeção. Novamente kairós, momento oportuno para acontecer algo que a cronologia impediria. E esse algo ganha espaço pelo alegre dispêndio de vida, tão sangrento como um sacrifício aos deuses, pois é a partir do sexo oral que Arcádio faz na menstruadíssima Hermínia que a névoa os alcança.

As pessoas que se deslocam e descolam do tempo, a guerra ou a névoa que faz todos se indiferenciarem, perdendo cada um a capacidade de ser dono de sua própria cronologia – tudo isso, o traço de Diego Sanchez dá forma. Os grandes espaços em branco, o contorno trêmulo e o detalhamento em hachuras produz uma poética do esmaecimento. É como se tudo fosse muito instável, facilmente capaz de se transformar em outra coisa ou mesmo desaparecer. Em Hermínia, a opção pela cor rosa no lugar do preto ajuda a dar mais significado ao traço, colocando algo de carnal, sensual e, ainda assim, suave.

A dimensão política – e estética – de um fim dos tempos é imensa. Em tempos – nosso tempo – que as notícias, o trabalho e o entretenimento humano se pautam pelo encadeamento e sucessão frenética, o autêntico gesto de ruptura kairológico parece ser a única alternativa para dar atenção – e tempo – para as nossas sensações. Não se trata de tirar umas férias para depois voltar para o ritmo do trabalho. O que o kairós nos exige é o corte profundamente renovador de todas as percepções. Isso só o fim dos tempos, singular para cada um, pode oferecer. Mas enquanto isso não acontece, você tem duas HQs muito legais pra te dar uma força nisso.


Perpetuum Mobile, lançado originalmente em 2013, foi republicado em 2015 pela editora Mino. No mesmo ano e pela mesma editora saiu também Hermínia, numa bonita edição capa-dura. Ambos podem ser adquiridos pela loja da Mino no facebook.