Estariam os super-heróis ficando super-expostos?

Estou velho. Lembro que, nos anos 1990, o cinema hollywoodiano tinha uma preocupação muito clara: a super-exposição. Era a década do Batman. Naquela época era um problema real para o mercado que a super-exposição de um personagem (e seu mundo) acabasse por esgotar a mina de ouro. Pesquisem por conta própria. Eram comuns entrevistas, resenhas e críticas falando das ameaças da super-exposição de uma franquia. Nos extras da edição em DVD de Batman & Robin, de Joel Schumacher, atores, diretor e produtor tocam no assunto. Inclusive culpam a super-exposição como uma das razões pelo fracasso de bilheteria do filme. 
Notem que Batman é de 1989, Batman Returns de 1992 e Batman Forever de 1995. Sempre três anos de intervalo. Batman & Robin saiu em 1997, com apenas dois anos entre um filme e outro. Estamos falando de super-produções que mexem com a mídia por um ou dois anos antes, rolando especulações sobre a estória, o elenco escalado, as fotos de bastidores vazadas, os teasers, os trailers, as pré-estreias, e que após a exibição nos cinemas continuam no radar através de lançamentos para home cinema, exibições exclusivas em canais de tv fechada, eventuais premiações etc. Ou seja, mal havíamos deixado de pensar em Batman Forever e Batman & Robin já estava aí, urrando por atenção. Outro aspecto: Batman & Robin foi o filme do Batman mais voltado para vender brinquedos. Por isso tantas roupas variantes, tantos bat-veículos e cenários deslumbrantes ao longo do filme. Era preciso expor (ou super-expor) que aquele super-herói e seu mundo podia ser reencontrado na loja de brinquedos mais próxima. 

Sim, eu sei o que você está pensando. Os problemas de Batman & Robin vão além, muito além da mera data de estreia ou sua pretensão em vender brinquedos. Mas é interessante notar como, para a Hollywood dos anos 1990, a super-exposição era de fato considerada um dos vilões de uma franquia. Façamos uma metáfora: os executivos entendiam que a franquia é aquele tio distante, gente boa, que vem passar alguns dias com a gente nas férias ou no natal, e que só o reencontramos novamente em datas especiais. Esse tio é um cara legal porque, realmente, ele é muito maneiro, mas também porque ele não é parte da rotina. Seu retorno é sempre cheio de ansiedade e encanto.
Mas então veio o século XXI, o século da internet, dos virais, dos compartilhamentos incessantes, da transmídia. Hollywood não quis perder o bonde. Suas franquias aderiram a essa nova onda. Dane-se se as idas e vindas esparsas do tio eram mágicas. Se ele é um cara legal, que more logo com a gente! E quem mais se parece com esse tiozão parceiro senão os super-heróis, esses adultos de sonhos infantis narrados em episódios e que nos acompanham desde a infância? O que hoje a Marvel faz é exatamente isto. Ele faz um personagem ser onipresente ao nosso dia-a-dia, vendo-o sem parar na HQ, no desenho animado, no game, na série de tv e – o mais importante – no cinema, tanto em cinesséries solo quanto em cinesséries da super-equipe. Estamos perto do cúmulo de na mesma semana em que sairá um trailer da super-equipe X, também vazarão fotos de bastidores da sequência solo do super-herói Y, integrante da super-equipe. Resta a pergunta: a super-exposição deixou de ser um problema?
Não, não deixou. Apenas deixou de ser para uma fatia expressiva de Hollywood. Por uma simples razão: mesmo quando havia todo um cuidado para não super-expor uma franquia cinematográfica, Superman, Batman e Homem-Aranha chegavam ao fim nos cinemas da mesma forma. Ou seja, se o trato a conta-gotas não impediu que a fonte secasse, que a gente encha a cara de uma vez!  O sucesso é efêmero, cada vez mais. Então que o aproveitemos às pressas. Mas a super-exposição tem seu custo e Hollywood sabe disso. O custo é a anestesia do público. Rever o Homem de Ferro não é mais um evento raro, tá mais para um encontro episódico numa série querida. A banalização é crescente e inevitável. É como no jornalismo sensacionalista. A imagem de um cadáver choca no primeiro dia. No segundo dia apenas incomoda. No terceiro já nos habituamos. No quarto dia, cadáver algum vai nos causar indignação. Então, de olho na audiência, cadáveres serão mostrados da maneira mais repulsiva possível. O processo reinicia e segue o mesmo caminho. No fim, um público cada vez mais anestesiado, insensível. 
Isso não difere da forma como lidamos com coisas que nos alegram, que nos enchem de euforia. Até o tiozão gente boa pode se tornar um baita de um chato repetitivo quando cai na rotina. Então, como Hollywood através dos filmes de super-heróis vai continuar sacudindo o público? Os quadrinhos de super-heróis tem três dicas: super-encontros, reboots (reinícios) e crossovers (confrontos). É nesse ponto que estamos. Batman enfrenta sua terceira reformulação, Homem-Aranha deve seguir o mesmo caminho. Os Vingadores já estão aí, porém cada vez mais gordos, deve entrar Homem-Aranha, talvez Demolidor, quem sabe Wolverine. O filme da Liga da Justiça também está anunciado. Os X-men já cruzaram o universo da cinessérie original com aquele da primeira classe. Batman enfrentará Superman. Não duvido um Vingadores vs X-men, assim como não duvido um Dc vs Marvel em algum momento.
E depois? Depois já era, porque até mesmo esses recursos cansam, inclusive nos quadrinhos contemporâneos. Alguns dirão que pouco importa o depois. “Se tudo isso acontecer, já terá valido a pena.” É possível. Mas como disse no começo do texto, eu estou ficando velho. Vejo os super-heróis como mitologia moderna, como aquelas estórias que contamos e recontamos ao longo de toda nossa vida. Não me agrada as consequências da super-exposição, um mundo consumido em sua própria euforia e efemeridade. Não há nada de mítico nisto. O andar cauteloso do espião 007 em dezenas de filmes pode servir de contraponto. Mas, para Hollywood, super-heróis só são a moda (e o troco) da vez. Ao final, que se despeje logo esse tio chato pra caramba!
  • Esse texto foi exemplar. Prevejo que após o filme da Liga, se chegarem lá, os caminhos vão ser esses que o sr citou, embora o mais fácil seja o gênero passar, é parte do processo.

  • phoenixspider

    Oi, amigo. Faz tempo que não apareço, mas ando com as coisas corridas por aqui.

    Concordo que os super-heróis estão expostos e que isso desgasta muito o potencial narrativo que eles oferecem. Eu diria que a DC até que está seguindo uma rota interessante ao tentar se diferenciar da Marvel, mas eventualmente, ambas cairão no marasmo e as adaptações vão voltar a ser coisa rara (ou não).

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    Bom, indo pro lado nerd/esperneante, vou reclamar da imagem do final. Não do seu uso no artigo mas sim ver o esforço dos roteiristas da época de usarem alguma desculpa porca pra não colocar o Homem-Aranha nos Vingadores e assim poderem continuar com a panelinha de buchas. (sei que isso não tem nada a ver, mas deu vontade de comentar por alguma razão).

    • Bem-vindo de volta Spider!