De Spirit a Here: Quadrinhos não são arte sequencial

Para complementar a provocação do título: não são SÓ, não se resumem à arte sequencial. Em 1985, Will Eisner enquadraria os quadrinhos na categoria de Arte Sequencial através de seu livro Comics and Sequential Art (com tradução no Brasil). Scott McCloud problematizaria o termo, mas acabaria por reafirmá-lo em Understanding Comics (Desvendando os Quadrinhos). Pouco se leva em conta que ambos eram quadrinistas, que seus trabalhos aspiravam (mais em Eisner, menos em McCloud) a uma espécie de discurso sindical de valorização das HQs. Por isso a forçada de barra dupla: de um lado uma definição obrigatoriamente artística, em segundo uma predileção estética de alguma suposta qualidade dos quadrinhos. No caso, a sequencialidade dos quadrinhos.

As críticas a essa ênfase na sequencialidade dos quadrinhos são muitas. Inclusive anteriores aos trabalhos de Eisner e McCloud. Em 1976, Pierre Fresnault-Deruelle publicaria o seminal artigo Du linéaire au tabulaire (Do linear ao tabular), colocando que existem duas dimensões nos quadrinhos, uma linear, ligada à ilusão da tridimensionalidade e ao tempo da narrativa, e uma tabular, com apreço pela bidimensionalidade e ligada à composição global. Enquanto que pelo linear nós progredimos quadro a quadro (órgãos) na leitura de uma história, pelo tabular apreciamos a composição geral dos quadros (organismo), que corresponde geralmente à página, eventualmente dupla – porém tirinhas não estão excluídas. 
Fresnault-Deruelle veria com inquietação a ação conjunta dessas duas dimensões, sobretudo a tabular. O momento era propício para um certo receio, pois, ainda que existissem exemplos anteriores aos dos anos 1960 de quadrinhos que enfatizassem sua dimensão tabular, como o primeiro Little Nemo, Futuropolis ou Gasoline Alley, é a partir dos anos 1960, com Guido Crepax, Nicolas Devil, Guy Peellaert, Phillipe Druillet, Moebius, Robert Williams, Victor Moscoso, Rick Griffin, entre tantos outros, que aconteceria uma reconsideração bastante explosiva do tabular. Isso provavelmente pareceria, para aqueles que por uma vida inteira foram acostumados a ler quadrinhos numa composição discreta, que se estava pondo em risco a narratividade dos quadrinhos num certo interesse em se aproximar das artes visuais.
Porém era um processo irreversível. Dos anos 1970 para cá, o desenvolvimento da dimensão tabular só avançou. Deixou de ser algo de alguns quadrinhos de “vanguarda” para estar hoje presente em corriqueiros gibis de super-heróis. Ou seja, longe de privilegiar somente a sequencialidade, a simultaneidade passou a ser também ressaltada. Por isso a defesa de Eisner por uma ênfase sequencial parece tão diacrônica. É inclusive estranha por vários motivos. Lembremos que por muito tempo os quadrinhos foram considerados um irmão pobre do cinema, não muito mais que um story board tosco de histórias chulas. Essa visão empobrecedora das HQs se dava, em partes, porque só se olhava ao aspecto sequencial em comparação ao cinema. Foi só quando a simultaneidade passou a ser também objeto de estudo que os quadrinhos tiveram alguma independência artística em relação ao cinema. Mais esquisitíssima então se torna a defesa pela arte sequencial de Eisner, pois o próprio quando foi “resgatado” nos anos 1960 por revistas como Wtzend, Snarf, entre outras, foi em grande parte pelo leiaute rebuscado, pela dimensão tabular de seu Spirit. Reparem na imagem ao lado, página de abertura de uma história de Spirit de 1966, publicada no New York Herald Tribune.
A simultaneidade nos quadrinhos, essa possibilidade de ler quadros co-presentes a outros que nossa visão periférica capta é algo bastante peculiar, mais até do que a sequencialidade, embora esta seja, da mesma forma, de suma importância. Poderíamos dizer então, ao mesmo tempo, que os quadrinhos são a arte da sequencialidade simultânea e da simultaneidade sequencializada? Acredito que sim. Porém poucas HQs trabalham essa questão entre sequencialdiade e simultaneidade no cerne de sua poética. Uma exceção é Here, de Richard McGuire. Originalmente uma HQ preto e branco de 6 páginas, publicada na revista Raw em 1989, no finalzinho de 2014 Here ganharia uma nova edição, agora colorida e com mais de 300 páginas, com considerável estardalhaço na imprensa especializada internacional.
Here se passa em um único cômodo, trabalhando a simultaneidade de acontecimentos (e simultaneidade de quadrinhos) na sequência anacrônica do tempo. É tocante a sensibilidade sobre a passagem do tempo sob um único lugar. Você nunca se indagou quantas vezes alguém (ou você mesmo) sorriu ou chorou na sala de estar? E quantas vezes mais isso acontecerá? Esse sentimento de que tudo passa, e que, paradoxalmente, se repete pela eternidade, faz de Here uma bela HQ, tanto no que nos emociona quanto no que potencializa os recursos dos quadrinhos. Em partes a lírica de Here lembra o filme Árvore da Vida, de Terrence Malick, mas sem os diálogos enfadonhos. Pelo contrário, é o banal da palavra, da ação, do gesto, do dia-a-dia que é grandioso na sua pequenez.
Enfim, muito mais papo renderia, mas paro por aqui. Cabe apenas insistir: o “Aqui”, o momento oportuno pelo qual experienciamos uma HQ é muito mais rico do que os rótulos tem delimitado – e que a arte dos quadrinhos não cesse de nos apresentar tão poderosas exceções. 
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Quadrinhos e Arte Sequencial, de Will Einser foi publicado, da última vez, em 2010 pela Martins Fontes. Here, de Richard McGuire, saiu pela Pantheon em dezembro de 2014, ainda sem publicação no Brasil.   
  • Ciro Inácio Marcondes

    Linck, bela versão sintética (e precisa) dos argumentos dos autores clássicos da teoria das HQs. Apenas gostaria de ressaltar que, mesmo tendo entendido a sua ironia (chamar a atenção para a profundidade do campo nos quadrinhos ao mesmo tempo em que nega a sequencialidade), continuo achando que uma das potências mais particulares dos quadrinhos são justamente o seu trato da superfície, o uso e abuso das duas dimensões, e da sequencialidade, seja num caso radical, como em Griffin, ou algo prosaico como Tintin. Obviamente acho que o estudo do modo tabular dos quadrinhos (o requadro em si), e sua profundidade em perspectiva usada em inúmeras obras, traz uma dimensão de expressão para eles. Mas, do mesmo jeito que ocorre com a profundidade do campo em cinema, acho que se atribui um excesso de importância para esta dimensão. E olha que no cinema a perspectiva é gerada pelo foco, pela resolução da fotografia, etc, criando a tal “ilusão de veracidade”. E existe o travelling, o plano-sequência. No quadrinhos, onde predomina a ilustração e tudo é livre e possível (o próprio Proteu transmutado em arte), acho que a superfície em duas dimensões basta (quase sempre) para se exprimir quase tudo que é possível e desejável nessa forma de arte. Veja que o caso do “Here” é de sucessão em simultaneidade, e não de profundidade de campo (está basicamente em duas dimensões), ao contrário do Spirit, apesar de ambos estarem no território do tabular mesmo. Enfim, não sei se me fiz claro, mas são questões que me vieram à cabeça ao ler o seu (ótimo) texto. Grande abraço! – Ciro

    • Grato Ciro. Só um detalhe: nos termos do Fresnault-Deruelle a bidimensionalidade é da ordem do tabular, não do linear. É ela que evoca a página (ou somente a tira) como um cartaz, abrindo mão de uma profundidade de campo inerente à tridimensionalidade ficcional da história. Digo isso porque, na maneira como ele pensa, seria incompatível falar de profundidade de campo e simultaneidade ao mesmo tempo. Por isso nem entrei nesse papo sobre profundidade de campo que, aliás, é um excelente prosseguimento. Seja como for, sobre profundidade de campo caberia uma análise do Chris Ware, da sua negação militante da profundidade de campo cinematográfica buscada pelos quadrinhos dos anos 1930. Acho até que já tem uma análise assim, da Miodrag ou do Groensteen.

      Abraço!

      • Ciro Inácio Marcondes

        Linck, obrigado pela correção e pelas dicas. Totalmente de acordo quanto ao Chris Ware. Abraço!

  • ericoassis

    A sequencialidade simultânea/simultaneidade sequencial também ganharia função poética, se compreendi seu ponto, naquelas páginas hiperquadriculadas (http://apilha.com.br/wp-content/uploads/2015/02/Powers.v1_004.Imbie_.02-03.jpg), muito na moda pós-Chris Ware, ou naqueles grandes quadros em que os personagens percorrem uma cena dentro de um mesmo requadro (http://i0.wp.com/www.comiccrusaders.com/wp-content/uploads/2014/12/Powers_1_Preview_1.jpg) ou naquelas páginas clássicas de “cena única + narrativa” da Gasoline Alley (http://blog.comicsgrid.com/2011/02/king-frank-gasoline-alley-april-22nd-1934/)?

    “HERE” seria a melhor metalinguagem dos quadrinhos?

    • Oi Érico. Fico feliz de vê-lo por aqui.

      Apesar de só ter aparecido duas imagens dos três links que você postou, concordo com os exemplos. Na real, o que está em jogo é um pouco daquilo que o Thierry Smolderen coloca: que a sequencialidade tal um ‘fotograma’ foi realçada no começo como meio de facilitação da progressão de leitura para um ainda nascente leitor de quadrinhos. Passada essa etapa da praticidade, mais e mais abusariam das possibilidades da simultaneidade. Por isso o que ontem era vanguarda (Saga de Xam) hoje já está perto do banal (qualquer mensal do Batman).

      Sobre minhas apostas para o oscar de “melhor metalinguagem”, me inclua fora dessa. Talvez hoje, início de 2015, Here possa ser um dos exemplos mais marcantes. Mas isso é tão efêmero. Até os anos 90 nas escolas de cinema se ensinava que câmera na mão era um efeito de metalinguagem porque tornava o espectador consciente da câmera. Quem hoje, na geração youtube, pensa no cinegrafista só pela tremedeira do quadro? O que quero dizer é que há grandes chances dos recursos de Here serem mais e mais banalizados a ponto de sumir qualquer “meta” perante a linguagem.

      Abração!

      • Ciro Inácio Marcondes

        Lembando que talvez Here SEQUER possa ser considerado metalinguístico. Ele é certamente um uso avançado da linguagem dos quadrinhos, levando a simultaneidade em sucessão ao limite, mas, a rigor, ele não fala de quadrinhos. Fala da vida, da passagem do tempo, de intermináveis temas abordados de maneira periférica e disseminada. “Understanding comics” é metalinguístico. Watchmen tem algo de metalinguístico. Até os quadrinhos do Stocker (https://www.facebook.com/pages/Paulo-Stocker/329013347174015?fref=ts) ou Krazy Kat são metalinguísticos. “Here”, já não sei…

        • Acho que dá pra chamar de metalinguístico na medida em que ressalta um recurso que costuma ser discreto. Só que isso é algo efêmero, o chamativo logo se torna o novo discreto perante seu uso. Na verdade eu não quis mergulhar muito na questão, mas o ponto é que eu não consigo aceitar esse pressuposto de “linguagem dos quadrinhos”. Por isso, mais problemático ainda seria falar de uma meta-linguagem. Deleuze tem umas provocações boas contra a ideia de uma linguagem do cinema que eu estendo aos quadrinhos na minha tese lá pelo capítulo 6. Pra gente não cair nos labirintos da semântica, acho mais preciso colocar da seguinte forma: existem quadrinhos que ostentam seus recursos, fazendo deles o assunto consciente de sua poética. Here faz isso? Em partes sim, pela simultaneidade temporal pouco comum, mas daqui 20 ou 30 anos talvez isso jamais será considerado dessa forma. A extensão dessa pergunta necessariamente conduz à indagação se Gasoline Alley era ou seria considerado “meta-linguagem” (ou coisa que o valha) em seu tempo.

  • Valter Do Carmo Moreira

    Muito bom Link!

    Ler seu texto, me fez lembrar dos trabalhos recentes do desenhista J.H. Williams III (como a HQ da Batwoman, por exemplo) que brinca de forma maestral com a composição de suas páginas, jogando com a simultaneidade e narrativa dos quadros, assim como sua linearidade espacial e temporal, ofertando-nos uma experiência múltipla: temporal/sequencial/ por vezes anacrônica disposta de forma tabular, onde a própria diagramação sugere uma leitura de outra ordem, significando acredito, toda a página, afetando o tempo de leitura e percepção do leitor.

    • Batwoman é excelente. Valeu Valter.

  • Doctor_Brown

    Belo texto Linck!
    Creio que essa discussão pode ainda ser expandida se levar em conta o quanto tem evoluido as WebComics que há muito deixaram de ser apenas repetições do que se vê no papel em um tela de computador ou tablet.
    Afinal, uma WebComic pode explorar a dimensão tabular e sequencial em uma mesma “página” com uma liberdade quase ilimitada, agregando ainda noções diferenciadas de sequencialidade, uma vez que se tem disponível o poder dos hiperlinks.

    Me interessei bastante por esse “Here”. Vai pra lista de desejos.

    • Bem lembrado, James! As webcomics de fato tem tudo pra levar isso ainda mais longe. E Here é soberbo. Mesmo com dólar nas alturas ainda vale muito a pena. Abraço.

  • ALBN

    Olá, Alenxandre Link, eu descobri seu blog por acaso, graças ao compartilhamento do Érico Assis de sua crítica de Birdman, desde então estou lendo seus textos, deliciando-me da boa qualidade equilibrada de boa escrita e qualidade crítica sobre quadrinhos.Já vi que você irá fazer uma tese sobre a nona arte ue irá problematizar essa arte de sargeta.
    Eu sou Antônio Luciano Bonfim Neto, faço letras bacharelado na universidade estadual do Ceará e estou fazendo uma monografia na qual delineio os elementos narrativos dos quadrinhso sob a perspectiva semiótica de Umberto Eco, tendo Scott Mccloud e Eisner como base para demostrar a narrativa dos quadrinhos, desde cores, quadros, sargetas, tempo, espaço e etc, analisando Batman asilo arkhan e batman crônicas para denotar o contraste narrativo.
    Quais livros você poderia me indicar para estudar, problematizar e enriquezer a minha pesquisa?

    • Oi Antônio. Obrigado pelos elogios (obrigado ao Érico por tabela) e seja bem-vindo.

      Difícil eu jogar livros no seu colo sem saber um pouco mais sobre sua monografia, mas vamos tentar. Sobre a bibliografia que tu escolheste é preciso considerar que ela está bastante velha. O mais novo que tu citaste aí é de 1993 (do McCloud). Muita coisa boa que problematiza as ideias desses autores e as leva mais longe saiu depois disso. É uma pena que não tenha esses materiais em português. Se ler em inglês não é um problema para você, e como você quer fazer uma análise semiótica, recomendo The System of Comics do Thierry Groensteen (ou o original em francês, Système de la bande dessinée). Também pode ajudar The Visual Language of Comics: Introduction to the Structure and Cognition of Sequential Images, do Neil Cohn, e a resposta da Hannah Miodrag em Comics and Language: Reimagining Critical Discourse on the Form. Também tem Narrative Structure in Comics: Making Sense of Fragments da Barbara Postema, mas este último eu não li, não sei se vale tanto a pena. Para aproveitar o espaço, tem minha dissertação de mestrado sobre Batman, “A Morte do Homem no Morcego”, disponível no Guia dos Quadrinhos e, se você tiver tempo de esperar, lá por abril ou maio minha tese de doutorado estará disponível, sendo que no capítulo sobre narrativa coincidentemente eu analiso duas páginas do Asilo Arkham.

      Acho que já é coisa pra caramba. Boa leitura!

      • ALBN

        Alexandre,parabéns pelo doutorado, se você puder,pode me enviar a sua tese sobre “A invenção dos Quadrinhos:Teoria e Crítica na Sarjeta”? Fico agradecido como cavaleiro da Távola Redonda.

        • Oi Antônio. Grato! A tese deve cair na net na próxima semana. Agora só depende da Biblioteca. Abraço!