Cultura Pop, essa estranha aliada dos quadrinhos

Se há um consenso sobre o que é cultura pop, este é o de total falta de consenso. Isso se deve à confusão inerente ao termo. Cultura popular e cultura pop, ainda que pareçam a mesma coisa, não são. Esse racha se dá, precisamente, depois dos anos 1960. Antes prevaleciam as leituras sociológicas, apimentadas pelos marxistas da escola de Frankfurt, que associariam cultura popular à cultura de massa. Por que isso mudou? Porque surgiu nos anos 60, no seio do mundo da arte, a Pop Art. A partir daí, cultura popular, principalmente por meio dos pensadores dos estudos culturais, ganhou um novo sentido: seria a arte produzida e ativamente vivenciada pelo grosso da população pertencente aos setores sociais não detentores do poder de definição daquilo que é “belo” ou de “bom gosto”. Por sua vez, cultura pop seria um desdobramento difuso do movimento artístico sessentista.

Iconolatria, reprodutibilidade, consumismo, afetação – todos estes elementos, caros à estética Pop Art, se mantém na cultura pop. Isso é bastante empírico: basta andar por meia-hora em convenções de cultura nerd ou geek ou mesmo assistir um episódio de The Big Bang Theory. O culto ao ícone (que pode ser um personagem, um autor, um ator ou somente uma marca) permeia todas as relações de reprodução e consumo. O ícone nada mais é do que uma imagem dotada de identidade clara, isto é, uma imagem que a memória produz uma associação direta. Batman é um ícone quando reconhecemos alguns elementos que servem de identificação do Homem-Morcego. Isso não é inerente à cultura pop, mas é nela que esse ícone vira um modelo de culto e negócio chamado franquia, multi-plataforma, transmídia. Para a cultura pop, Batman só é um ícone quando aparece nos quadrinhos, cinema, games, brinquedos, indumentária etc. Por isso, por tabela, a reprodutibilidade e o consumismo se tornam, eles mesmos, um objeto de culto. Batman só tem serventia icônica quando eu posso consumir seus massivos produtos.

Como todo este comportamento pode ser facilmente criticado por qualquer marxista dotado do conceito de “fetichismo da mercadoria”, a noção de “afetação” surge como resposta e autodefesa. De certa forma o que a cultura pop argumenta a seu favor é que tudo se trata de um enorme carnaval, uma festa alegre, ébria e consciente da sua artificialidade. Batman é, portanto, um orgasmo, um nerdgasmo, e não uma religião ou sistema de valores.

O que é curioso em toda essa história é a problemática relação entre os quadrinhos e a cultura pop. Nos anos 1960, quando Roy Lichtenstein exibiu seus quadros, se apropriando de diferentes HQs sem qualquer crédito, o mundo dos quadrinhos se mostrou incomodado. Artistas como Irv Novick (Batman, Flash) e Burne Hogarth (Tarzan), assim como os intelectuais brasileiros Moacy Cirne e Álvaro de Moya, foram bastante duros com a Pop Art. A revolta, conforme aponta Bart Beaty, não era só por uma questão autoral. Certamente causava irritação ver tantos artistas dos quadrinhos menosprezados terem seus trabalhos utilizados por um artista plástico que colheria todos os louros. Mas aqueles que um pouco entendiam de arte sabiam que era da Pop Art (como fora do Dadaísmo antes dela) o uso de ready-mades, de modo que o gesto artístico não estava tanto na produção do material, mas na sua apropriação e ressignificação no espaço da galeria e do museu.

Portanto, segundo Beaty, o que mais irritava, ainda que não de forma declarada, era justamente a afetação em volta dos quadrinhos, da maneira inclusive afeminada que eles eram abordados (não esqueçamos que as principais fontes de Lichtenstein eram quadrinhos românticos). De alguma forma o olhar dos anos 50 que via nos quadrinhos um objeto sem valor e pernicioso para as crianças ganhava um desdobramento condescendente pela Pop Art, onde as HQs só serviriam como arte apenas na condição de objeto-fonte, ícone da cultura de massa e toda sua frivolidade intelectual. De certa forma a série de 1966 do Batman espelha esse período: toda essa afetação encontra vazão na estética Camp, fazendo de Batman e Robin dois heterossexuais bastante afeminados (e não percamos de vista que a rotulação de gênero está embutida aqui, com afetação sendo sinônimo de “mulherzinhas hipersensíveis”).

Seja como for, o ressentimento do mundo dos quadrinhos perante a Pop Art persistiu ao longo das décadas. “Lichtenstein fez tanto pelos quadrinhos quanto Warhol fez pela sopa”, diria um irritado Art Spiegelman em 1990, e ainda hoje não é raro ver quadrinistas mais ligados ao underground ou estudiosos dos quadrinhos denunciar os desserviços da Pop Art às HQs.

Porém os quadrinhos também colheram alguns frutos bastante proveitosos da Pop Art. Já na segunda metade da década de 60, a arte de Jack Kirby seria cada vez mais direcionada para quadros tensionados de drama e cores explosivas (Quarto Mundo), Steve Ditko faria do excêntrico sua marca (Marvel, Charlton, DC), e Jim Steranko aprofundaria suas experimentações em Pop e Op Art. Na França sairia em 1966, com grande sucesso, o até hoje considerado mais Pop de todos os quadrinhos: As Aventuras de Jodelle, de Guy Peellaert e Pierre Bartier (Peellaert cocriaria também, dois anos depois, a heroína Pravda). No Brasil temos também o caso de Ziraldo e sua série Os Zeróis. Cores saturadas, falta de pinceladas, contorno e delineamento nítidos, supressão da profundidade, reprodutibilidade, hedonismo – todos esse elementos, caros ao Pop, estavam lá.

É de se perguntar se esses “empréstimos” também não favoreceram o surgimento das convenções de cultura pop. As exposições de Pop Art eram – como o termo já alude – bastante populares. Inclusive a ponto do crítico de arte Max Kozloff se incomodar com aqueles “jovens desmiolados”, “meninas bobas” e “pequenos delinquentes” frequentando as galerias e museus. Ao que tudo indica, a partir da leitura dos relatos da época, o que parece ficar claro é que as exposições de Pop Art foram eventualmente proto-convenções, espaços de encontro entre aficionados pela cultura pop.

Tudo se explicita, portanto. A cultura pop se desenvolveu justamente a partir do cinema, dos quadrinhos e de outras mídias abordadas pela visão de mundo particular da Pop Art. O que vivenciamos, nesses mais de 50 anos, foi apenas a profissionalização do comércio desse tipo de mundo. Por isso na Comic Con um autor como Frank Miller só tem serventia a partir da mercantilização de sua figura pública, assim como por seus infindáveis autógrafos, todos feitos em ritmo industrial – ainda que tenha o carimbo de “personalizado”. Quando todos massivamente ostentam uma selfie ou um autógrafo de Frank Miller é dado vida mais uma vez às repetições que Andy Warhol fez com Marilyn Monroe, Elvis Presley, Jacqueline Kennedy, as latas de sopa Campbell etc.

Estaria então a história de ressentimentos dos quadrinhos com a Pop Art perto do fim através de um vibrante modelo de negócio chamado cultura pop? A resposta é não. Por um simples motivo: os quadrinhos ainda não conseguem habitar, no imaginário coletivo, um espaço que não seja atrelado ao da cultura pop. Para outras artes isso é fácil. O cinema da Comic Con não é necessariamente o cinema dos grandes festivais, a literatura da convenção de cultura pop não é obrigatoriamente a mesma das feiras literárias, mas os quadrinhos, que dão nome inclusive a tais convenções nerd, veem-se vinculados como uma arte essencialmente – e reduzidamente – pop. Enquanto às outras artes a cultura pop é apenas mais uma prova de sua diversidade, nos quadrinhos a associação compulsória produz um certo atestado de pobreza e limitação.

Ainda que existam as premiações (Eisner, Harvey, Angoulême), ou festivais específicos (caso brasileiro do FIQ), as obras e os artistas dos quadrinhos valorizados são essencialmente os mesmos, variando apenas a intensidade do prestígio aqui ou ali. Ou seja, se no FIQ há grande destaque para uma quadrinista como Laerte, nada impede que a mesma esteja na Artists’ Alley ou no estande de alguma grande editora na Comic Con Experience. Por sua vez, dá para imaginar Jean-Luc Godard em sessão de autógrafos na San Diego Comic Con?

Os quadrinhos e a cultura pop não são sinônimos. Cada um tem seu mundo e seu horizonte – e que eventualmente podem se cruzar. Porém a luta dos quadrinhos, do underground às graphic novels, das edições de luxo ao artesanal, dos festivais aos eventos acadêmicos, ainda hoje é pela conquista de um mundo para chamar de seu. Nessa jornada a cultura pop continuará sendo essa estranha aliada, as vezes heroína, as vezes a pior das vilãs.


Foram úteis os livros Comics versus Art, de Bart Beaty, Bande Dessinée et Narration, de Thierry Groensteen, The Adventures of Jodelle, publicada pela Fantagraphics e repleta de extras sobre a época, além de publicações dos anos 1960 e 70. Na minha tese de doutorado, A Invenção dos Quadrinhos, abordo esta questão no quarto capítulo (ainda que ali não fale das convenções e hoje me pergunto porquê diabos não fiz isso!). Para baixá-la, basta clicar aqui.

  • Anderson Do Rosário

    nerdgasmo é boa! Nunca consegui ser um nerd, minha mãe sempre me lembrava do princípio de realidade, da minha realidade. “Tenquetrabalhar!” se fosse braçal era mais nobre!

    Eu sinto uma grande satisfação quando falo de Andy Wahol nas minhas aulas. Ele foi essencial pra arte ocidental.

    • Acredito que o dionisíaco faz parte da vida. O nerdgasmo é isso e não há problema algum. Uma crítica merece atenção quando isso se torna a norma, isto é, a caretice institucionalizada. É o que, de forma muito respingada, ocorre aos quadrinhos.

  • Belo texto! Concordo com os apontamentos de que os quadrinhos estão ainda procurando um lugar ao sol apesar de todos esses anos de vida.

  • João Bonillo

    Acho que vale a pena mencionar quando o quadrinho se apropria da pop art (se bem que no caso foi muito mais uma homenagem do que uma apropriação propriamente dita). Na edição 19 de Miracleman, Neil Gaiman e Mark Buckingham constroem uma trama cujo protagonista é nada mais nada menos do que Andy Warhol, sem contar nas inúmeras referências à sua arte que são feitas ao longo da revista.