Conan entre a cultura do estupro

Lia Conan quando soube do caso do estupro coletivo ocorrido no RJ e acompanhei toda a discussão que se seguiu depois nas redes sociais. Coincidentemente, Conan é um personagem bastante amado pelo lado másculo da força. É um cara temido, forte, violento, que fala o que pensa, que pega todas as gostosas e desconfia de progressismos e reformismos. Por isso, o feminismo raramente olhou com simpatia para suas aventuras. Nos quadrinhos, principalmente na célebre revista The Savage Sword of Conan, de 1974 a 1995, as mulheres são quase sempre muito atraentes, sedutoras e frágeis. Frequentemente se entregam para Conan ainda que ele seja grosseiro com elas. As guerreiras são, inclusive por ele, mais respeitadas, porém em algum momento elas se mostrarão também frágeis e terá o cimério de bronze que carregá-las sobre os ombros para fugir do perigo. Por fim, o estupro é habitual, seja ele insinuado ou manifesto. Ora, A Espada Selvagem de Conan era uma publicação claramente voltada para o público masculino.

Contudo, ainda que possa ser machista o mundo de Conan, é preciso considerar uma abertura à uma crítica social bastante latente. Refaçamos a pergunta se atendo ao universo ficcional: por que todas as mulheres são gostosas? Não é preciso ler muitas histórias para pensar na seguinte resposta: as consideradas feias já estão mortas. Sim, isso é uma grande probabilidade. Trata-se, afinal, de um mundo violento, de saques, invasões e conquistas. Que utilidade teria uma mulher feia? Nenhuma. Mas a bonitona, bem, essa poderia servir de companhia, ostentação, contemplação e poderia dar uma prole saudável. E o que essas mulheres, além de serem bonitas, teriam de fazer para sobreviver? Ora, elas teriam que saber andar na corda bamba, mantendo os homens à uma distância relativamente segura e, ao mesmo tempo, fazendo eles crerem que elas precisam muito deles. Seria então a fragilidade, a sedução ou a entrega ao mais forte uma encenação, uma estratégia desesperada de sobrevivência?

Isso me faz lembrar do quão pouco se compreende as motivações da Rainha Má ao querer executar a Branca de Neve. Não é a mera futilidade que faz a Rainha Má temer a aparência da Branca de Neve. É o fato de que a vilã, deixando de ser a mais bela, pode perder o seu reinado. Ora, por que milhares de soldados numa sociedade patriarcal acatariam uma mulher que não fosse o maior de seus fetiches? Não é a feiura que a Rainha Má teme, é um golpe de Estado capaz de aniquilá-la.

Retornemos ao mundo de Conan. É característica do bárbaro protagonista desconfiar profundamente da civilização. Essa postura, vista por vezes como prova de um reacionarismo político, pode ser, também, o caminho para um crítico ato de resistência. Afinal, se essa civilização faz o que supomos que faz com as mulheres, aceitá-la sem ressalvas seria um equívoco. As críticas de Conan à civilização está no quanto ela enfraquece os homens, priva-os de sua natureza selvagem, lançando seus corpos ao marasmo de uma vida burocrática e fraudulenta. Porém, ao mesmo tempo, Conan optou por jamais estuprar uma mulher. Se nos livros ele mantém essa conduta praticamente intocável (havendo uma polêmica em A Filha do Gigante de Gelo), nos quadrinhos, em histórias das suas primeiras aventuras, isso foi algo que ele desenvolveu.

Estaria, então, o estupro também inserido nos males que a civilização produziu na visão de Conan? Evidentemente o estupro remonta a um estado de natureza selvagem, da lei do mais forte, mas é de se pensar se a civilização não criou para si uma nova forma de normatização do estupro, de modo a potencializar sua eficiência por meio da cultura. É como no abate de animais: se o selvagem matava à machado o que lhe serviria de alimento, hoje temos fábricas capazes de engordar em cativeiro e exterminar rapidamente milhares de animais todo dia, numa quantidade muito maior do que de fato sentiríamos necessidade. Só que a necessidade não cessa, afinal, temos todos os dias anúncios nos vendendo desejo – seja ele de comer o que não precisamos, seja ele de cobiçar a mulher photoshopada que sequer existe.

Evidentemente, atribuir à Conan toda essa crítica social é um voo um tanto ousado de interpretação. O que interessa é o que dela podemos fazer nascer e crescer no gesto infinito de repensar a sociedade. Quando até mesmo um cara machão não se reconhece na cultura que o rodeia, a mesma que faz do estupro uma norma, isso é, para qualquer pessoa, um chamado à reflexão. Fica, portanto, o convite à leitura de uma história incomum publicada na The Savage Sword of Conan número 6, de junho de 1975. “People of the dark”, escrita por Roy Thomas e com arte de Alex Niño, é uma livre adaptação do conto de 1931 de Robert Howard, quando ele ainda ensaiava criar Conan.

De um primor narrativo em quadrinhos, a história começa nos dias de hoje. Jim O’Brien resolve fazer uma tocaia em uma caverna para Richard Bent, o indivíduo que disputa com ele o amor de Eleanor Rand. Ocorre que, na hora de se esconder, O’Brien acaba caindo, e estranhamente assume as lembranças de um jovem Conan que, ao sobrepujar a fortaleza de Venarium, persegue uma mulher, para ele uma recompensa digna. Tamera é seu nome, e entre ela, aterrorizada, e Conan, surge o inimigo Gaeric, que era o amante dela. A perseguição faz Conan encurralar o casal na mesma caverna que entrou O’Brien. Lá os três, depois de alguns confrontos, se descobrirão rodeados de um estranho povo anão reptiliano. Uma aliança é forjada em nome da sobrevivência. Conforme as batalhas seguem, Conan demonstra um heroísmo que não tinha, e inclusive arrisca sua vida pelo bem do casal. Porém, apesar de todos os seus esforços, assiste impotente ambos morrerem quando encurralados pelos monstros. A história então retorna para o presente. O’Brien retoma sua consciência e vê que Bent finalmente apareceu, mas acompanhado de Eleanor que declara seu amor para ele. O ciúme consome O’Brien que resolve matar ambos com seu revólver, porém um monstro, resquício do povo que Conan enfrentou, aparece. O’Brien então se depara com uma espécie de segunda chance. Para salvar o casal ele atrai o monstro para si, mata-o, mas acaba morrendo também no confronto.

Essa breve história é uma clássica narrativa de redenção. Contudo, ela arranja dois elementos importantes: a cultura do estupro e o desejo narrado da mulher. A cultura do estupro está ostensivamente na sexualidade da mulher como parte dos objetos a se possuir numa cidade invadida. Porém, também está, em raiz, com O’Brien quando ele, ao desejar Eleanor, resolve ignorar o desejo dela em nome do seu, aqui personificado no assassinato do “concorrente” escolhido. Afinal, o que é o estupro senão a conquista sexual de um corpo em que pouco importa o seu próprio desejo? Por isso é o desejo narrado da mulher que muda tudo. Quando Eleanor se manifesta, ela é primeiramente ignorada, porém, a redenção de O’Brien acontece justamente no momento em que ele se arrisca pelo desejo dela e, portanto, o aceita. Ou seja, o desejo narrado da personagem feminina, a manifestação verbalizada do seu querer, ainda que breve na história, é o fator inicial da reviravolta que faz nascer (e morrer) o herói.

Quer me parecer que isso tudo pode nos servir como uma importante alegoria para o momento em que vivemos. Uma cultura do estupro interrompida pelo sacrifício heroico de reconhecer na mulher um ponto de vista narrativo, um alguém capaz de dizer “eu desejo diferente”. Será que somos capazes disso?

  • Douglas Rigos

    Texto interessantíssimo, principalmente porque conheço quase nada do Conan, uma pena que eu não tenha lido antes. Vou ver se passo a acompanhar seus textos, achei este muito bem feito. Parabéns!

  • Victor Diomondes

    Ótimo texto. Sempre reparei que Conan é um personagem paradoxal. O fato de ser absolutamente másculo chama a atenção de quem deseje suas características para si. Numa cultura como a nossa, ser Conan, de fato, é o desejo de muitos homens. Porém, como você bem observou, seu lugar de ceticismo quanto a civilização (também característica de seu autor, Robert E. Howard), dá a ele uma capacidade critica sobre ela. Pouco se observa que atrás dos músculos e imponência desse personagem, existe alguém capaz de aprender com muita agilidade (basta ler todas as histórias em que ele muda de uma profissão para outra: ladrão, pirata, rei). Conan tem um olhar afiado para além de sua força, e sua capacidade de aprender é que o faz sobreviver. Talvez ele partilhe com o Jor-El do filme O Homem de Aço, essa questão de estar além dos valores (caducamente) defendidos por uma civilização, mas não pode evitar o fato de estar totalmente mergulhado nela, fazendo parte dela, nascendo dela como individuo. Talvez o próprio Howard estivesse preso aos paradigmas de seu tempo, mas de alguma forma os desafiava. Talvez seja assim sempre com artistas inquietos… Porém, talvez nosso tempo merecesse um outro Conan, ou qualquer personagem, que desafiasse os paradigmas desse século, que estão aparecendo no calor dos embates diários, na cultura e na cultura pop.