Come-Comics #1 – 3ª Mundo, Qbrado, Chuva de Merda

Eventualmente recebo alguns quadrinhos de artistas, editoras ou lojas. Essa gentileza tem como contrapartida a crítica sincera sobre cada uma dessas obras. Essa sempre foi a essência do QnS: a estranha relação de amor que a arte e a crítica mantém. Vejamos quem foram os últimos amantes…

3ª MUNDO – de Robert Yo e Ibu Junior
3ª Mundo é, sobretudo, uma HQ jovem. Isso está na sinopse: a história de três jovens amigos, moradores de uma favela, que resolvem sair de bicicleta na madrugada para observarem uma chuva de meteoros. Contudo, a juventude também está na arte e no roteiro. O traço de Robert Yo, assumidamente embebecido no mangá, é eficiente ao dar gestos, rostos e emoções aos personagens. A gente realmente tem empatia por aqueles garotos. Porém, a cidade, que é um personagem à parte (diria eu, o principal antagonista) é pouco elaborada, se resumindo à mera ilustração de uma cidade genérica. Ora, até cidades genéricas tem sua força gráfica!

O roteiro de Ibu Junior, por sua vez, parece perder o tom quando se afoba demais no desejo de se expressar, de colocar um discurso e forçar uma reflexão condicionada a esse discurso. Ou seja, beira perigosamente o panfletário. Com isso, certa poética dos personagens fica de lado perante o uso de porta-vozes pelos quais o autor quer ansiosamente discursar. Exemplo claro é o mendigo sábio, personagem clichê do mentor improvável de falas enigmáticas.
Por isso que 3ª Mundo é uma HQ jovem. Possui aquela força promissora própria da juventude e, ao mesmo tempo, certa impaciência ou impulsividade, atrapalhando todo um processo que necessitaria de mais calma.
3ª Mundo é uma publicação da Marginal Comics e por ser adquirida aqui.
QBRADO – de Reno
Qbrado segue uma fórmula simples e muitas vezes eficiente: a narrativa de um personagem não humano que nos expõe os absurdos da humanidade. É o caso do simpático robô Kid-A02, criado para sentir emoções – ou seja, um robô completamente inútil. Desde o seu descarte, até sua tentativa esdrúxula de fazer parte da humanidade, Kid-A02 é o guia para crítica a uma sociedade indiferente e consumista. 
Se a arte de Reno é bastante frágil, há sacadas narrativas gráficas muito legais, como a sequência que vai da contração à rotina de trabalho de Kid-A02 como atendente de telemarketing, o percurso maluco casa-trabalho-casa e a frustração do dia do pagamento, com a grana sendo torrada na loja de um vendedor transformado em serpente. 
O final, com moral da história, tira parte da força desse olhar absurdo, recaindo naquela já apontada ansiedade juvenil de passar uma mensagem. Ainda assim, é preciso dizer, Qbrado é uma leitura genuinamente divertida.
Qbrado é uma publicação do autor e pode ser adquirida aqui
CHUVA DE MERDA – de Luiz Berger
Chuva de merda é uma coletânea de histórias de Luiz  Berger publicadas no Brasil, Argentina, México, Portugal, EUA  e Suécia entre 2011 e 15. Além disso, há também histórias inéditas. A HQ nos remete a Robert Crumb, S. Clay Wilson, Philippe Vuillemin, Marcatti e tantos outros que fizeram da escatologia uma poética. É quase paradoxal que tanta nojeira tenha sua beleza. Alexandre Kojève, filósofo, apostava no Belo da arte como uma essência pré-existente extraída dos objetos. Ou seja, é do artista a capacidade de dar imagem à beleza essencial das coisas. Ora, o que é mais essencial da vida do que cagar, mijar, peidar, comer, transar e morrer de forma deplorável e repugnante? O nojo, nessa lógica, é só a manifestação sensível de uma beleza escrota que muitas vezes nos falta estômago para olhar. 
Por essa razão, Luiz Berger é virtuoso nas belas-artes da nojeira. Ele consegue por meio do Rato Robson, Ala das Pessoas Fodidamente Deformadas, A Vingança do Doutor Zárgov, A Viagem de Seu Raimundo, entre outras histórias, produzir imagens riquíssimas em detalhes, texturas e sujeiras, dando corpo àquilo que geralmente tendemos desmaterializar em nossos pensamentos. Talvez seja por isso que as histórias de Chuva de Merda sejam na sua maioria igualmente trágicas. Afinal, nada é mais irremediável e fatal do que a escatologia – e aqui falo da escatologia religiosa, do destino final do homem. 
A chuva de merda é a chuva do juízo final, portanto. A bela constatação em quadrinhos de que somos nós, também, apenas uma massa mal-cheirosa, corrida pelo reto do cosmos e destinada a se decompor na eternidade.
Chuva de Merda é uma publicação lombada quadrada da Gordo Seboso e Ugra Press. Pode ser adquirida tanto na loja quanto no site da Ugra.
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A propósito, neste final de semana estará rolando em São Paulo a bacaníssima Ugra Zine Fest 2015. Se você não está na merda – ou mesmo estando – apareça lá.