Bill Finger é creditado como coautor do Batman. E daí?

Sexta-feira passada (18 de setembro) o jornal americano The Hollywood Reporter noticiou que a segunda temporada da série Gotham e o filme Batman vs. Superman terá Bill Finger creditado como um dos autores do Batman, ao lado de Bob Kane. As respostas do mundo dos quadrinhos foram rápidas, e essencialmente de três tipos: 1) “justiça feita, apesar de 76 anos depois”; b) “deveriam ter feito isso quando ele ainda era vivo!” (Bill Finger morreu em 1974); c) “certo, Finger foi fundamental, mas convenhamos, Batman é um plágio de um monte de outros personagens e seus universos”.

The Bat, 1926

É a essa terceira opinião que eu gostaria de me ater um pouco mais. Bill Finger é cocreditado, ainda que com alguma polêmica, por criar o visual do Batman, a identidade de Bruce Wayne, a cidade de Gotham, a Batcaverna e o Batmóvel, além de ter participado da criação do Robin, do Coringa (algo contestado por Jerry Robinson), do Pinguim (em contradição com Bob Kane), da Mulher-Gato, do Espantalho, do Cara-de-Barro, do Charada, e vários outros vilões.

The Bat, 1926

Porém, apesar dessa longa lista, a provocação fundamental continua: Batman é um plágio. De quem? De muita gente. O homem-morcego é uma sobreposição de personagens. É o Superman (homem de grandes feitos com uma cueca por cima das calças), Zorro (aristocrata justiceiro de dupla-identidade que se esconde numa caverna), O Sombra (vingador noturno de uma grande cidade corrupta), Sherlock Holmes (o detetive do método lógico-dedutivo), Conde Drácula (o nobre amaldiçoado repleto de elementos góticos), o Morcego Negro (personagem dos pulps dos anos 1930), além de filmes como The Bat, de 1926, e The Bat Whispers, de 1930, ambos de Roland West e baseados numa peça da Broadway de 1920, de Mary Roberts Rinehart e Avery Hopwood. Há também a hipótese do Batman “roubado”, um personagem de 1932 criado por Frank D. Foster II.

The Black Bat

Diante de tantas referências tão explícitas, qual a importância de reconhecer a autoria de um super-herói como o Batman? Em uma época e com uma mídia aparentemente caracterizada pela “morte do autor” (as revistas em quadrinhos dos anos 1930), para que serve hoje a retomada da autoria? Alguns dirão que o trabalho de “montador” por si só justifica o reconhecimento – algo em que Bill Finger seria um mestre. Mais além, a autoria serviria para responsabilizar, apontar o dedo acusatório para as pessoas que justamente operaram esses amontoados de cópias.

O que é preciso organizar em todas essas ideias é uma distinção fundamental entre a noção de autor do romantismo e do autor como gesto. O autor romântico é o criador supremo, o gênio, aquele que se expressa pela sua novidade e que parte de referências que são essencialmente diferentes daquelas de sua obra. Essa ideia de autoria, criada pelo século XIX, ainda prevalece em nós. Até hoje supomos que verdadeiramente autoral é quem se encaixa nesses requisitos românticos, ignorando o delírio de tais pressupostos.

Comparação entre o Batman de Frank D. Foster II em 1932 e o de Bob Kane e Bill Finger em sua primeira aparição na Detective Comics em 1939.

Afinal, se devidamente escavada, qualquer obra, se mostrará muito pouco “original” (sempre alguém terá feito algo parecido antes). Além disso, o trabalho autoral só ganha ares de “auto-expressão” quando forçamos a barra para isso, quando insistimos numa interpretação que inverte a ordem dos fatores. Ou seja, em vez de nos determos na potência da obra, procuramos decifrar o autor, de modo a domesticar, reduzir as significâncias de sua produção. Essa malandragem foi um mecanismo típico da crítica mais medíocre, uma maneira dos ditos críticos domarem esse animal selvagem chamado arte a partir de meia-dúzia de dados biográficos.

Livro de 2012 sobre Bill Finger, de Marc Tyler Nobleman

Em outra direção está a ideia do autor como gesto. Aqui não interessa mais a originalidade, novidade ou genialidade. O que está em jogo é o reconhecimento do autor como perda, como alguém que encontramos a partir de sua ausência. Em outras palavras, temos o Batman por meio de um gesto de Bill Finger, mas tanto a essência do Batman quanto a identidade de Bill Finger estará sempre aberta, sempre posta em jogo no ato da leitura de uma HQ do Batman. Afinal, a leitura é exatamente isto: um jogo de participantes ausentes, de gente que está ali (assinando ou lendo), mas ao mesmo tempo não está, pois a única materialidade fundamental é a obra.

Portanto, a importância principal do reconhecimento oficial, ainda que tardio, de Bill Finger está no jogo que se fortalece. Isto é, no acréscimo de um participante de peso, o próprio Bill, que servirá não para “matar a charada” desse objeto cultural que chamamos de Batman, mas para somar forças em toda a riqueza difícil de delimitar, algo que uma HQ do Batman até hoje nos exibe, 76 anos depois.

  • Pois é, a maioria dos personagens ou é pastiche de outro, ou uma mistura de um pouco de cada.Teve dois Morcegos Negros, o primeiro criado em 1933 por William Fitzgerald Jenkins, que assinava como Murray Leinster, estreou na edição de outubro daquele ano da revista Black Bat Detective Mysteries, já o segundo estreou em julho de 1939 na revista Black Book Detective da Thrilling Publications (editora do Ned Pines que assim como o Martin Goodman, usou vários nomes para publicar pulps e quadrinhos), havia uma disputa sobre quem copiou quem, (embora suspeita-se que os personagens tiveram inspiração nas roupas do primeiro Black Bat nas capas da Black Bat Detective Mysteries, embora os textos não citasse qualquer roupa distinta, semelhante ao que ocorreu com o Conan e as capas do Frank Frazetta dos anos 60, que passaram a ser a identidade visual do bárbaro), Whitney Ellsworth, que havia trabalhado nas duas empresas, negociou um acordo, a Nedor (outro nome usado pelo Pines) evitou publicar quadrinhos do Bat Black e criou um genérico chamado Mask, além disso, há um site chamado OriginalBatman onde afirmam que um tal de Frank D. Foster criou em 1932, não só o Batman, como um Nightwing (que curiosamente surgiu numa história do Superman em Kandor).

    • Perfeito Quiof. Esbarrei em todas essas informações, mas por concisão as deixei de lado. Fico realmente feliz com esse “apêndice”.

  • Nunca foi escondido que o Batman teve base em outras criações. Desde Leonardo Da Vinci a personagens da cultura pulp, como O Sombra, o Batman sempre foi assimilado a eles. O que quatifica o crédito de Finger como coautor do Batman, foi porque ele soube unir os elementos e ideias que Kane e ele tiveram em um único personagem. Eles eram jovens acostumados a leitura de pulps, a filmes e romances de terror, coisas em ascensão na sua época. Se formos colocar as questões de criação, Bram Stoker não fora original (o mito do vampiro existe desde os tempos antigos), Zorro não fora original (o personagem foi baseado no Pimpinela Escarlate, personagem que ajudava os burgueses na fuga da França revolucionária), e por aí vai. A originalidade depende do ponto de vista e, mesmo tendo tantos elementos ao serem assimilados, o Batman ainda consegue ser original por ter unido tantos elementos e ter dado mais certo que suas contrapartes (não que essas não tenham conseguido seu sucesso).