Da alegoria de YE: que ausência de cor te reina?

Quando os bons alegoristas do século futuro estudarem o Brasil de hoje, eles lerão Ye, de Guilherme Petreca. Lançado em abril de 2016, a história em quadrinhos ganhou uma recepção discreta. A sinopse não traz nada muito surpreendente: o menino Ye (que só fala a sílaba de seu mesmo nome) é maculado pela entidade “o rei sem cor”, e, por isso, precisa deixar sua aldeia em busca da bruxa Miranda, que poderá ajudá-lo. Trata-se de uma tradicional trama de amadurecimento, com Ye encontrando aliados, inimigos e provações na figura de mágicos, piratas, prisioneiros, palhaços e monstros.

A arte de Petreca é impressionante. Preto e branco de um domínio lúdico invejável. O traço corre, parece animado, articulando a um só tempo a firmeza figural pelos contornos e a fluidez da forma esboçada, semi-concreta de um mundo à lápis. Nos momentos mais oníricos, onde deixa o traçar ir ao limite de sua própria risca sobre a figura, Petreca lembra Sergio Toppi. Os rostos, por sua vez, tem a delicadeza e expressividade de Taiyo Matsumoto. É essa força que sustenta o universo da história, um pastiche cigano de uma Europa medieval, um Japão do início do século XX ou uma América Latina que só o realismo mágico ousou sonhar.

Contudo, tanto a simples trama quanto a bela arte pouco teriam de significante para o século futuro se não fosse um outro poder que está em Ye, mas ele sempre se dá em outro plano. Estou me referindo a sua alegoria.

O que é alegoria? A alegoria é o corte na ordem pacífica da letra e da imagem. É quando o mundo ficcional cochicha por baixo da sua fala muda oficial. A alegoria surge no momento em que o mundo para de produzir sentido e, portanto, o sujeito, diante dessa ausência, agarra-se nos restos da história que tem em busca de uma trilha, uma pista que o conduza a outro lugar.

Em outras palavras: em Ye, a alegoria é o que mostra, pelo traço figurativo, o cintilar de uma mancha negra de tinta.

“O rei sem cor é responsável por todas as pragas, guerras, tristezas e tragédias. É como uma tinta negra que mancha qualquer superfície, que sobrepõe sua cor sobre qualquer outra. O rei sem cor existe em todos nós, adormecido.”

Olhe para fora, abra a janela (a de vidro e alumínio, não aquela que só produz uma nova interface). Que mácula está diante de você? O que cresce cada vez mais negro, sombrio, o que se mostra para aquém do objeto, sendo tão pestilento que nos envolve e faz com que sejamos também parte do rei sem cor? Que ausência de cor te reina?

Para a alegoria funcionar, não podemos objetificar o rei. Evidentemente, é tentador. Afinal, a forja de uma nação passou pela presença de um rei ausente, sem cor, cheiro, voz ou movimento. Ainda que hoje o rei se faça visível em nossas casas todos os dias, o presidente é um semblante, o fino véu de um negrume que vive em todos nós. Dele só temos traços (como Ye que só tem uma pena, ou Miranda uma mancha na mão), e a ele só podemos responder negativamente.

Seriam sintomas os tantos #NãoAo…, #ChegaDe…, #Fora…? Não cessamos de expulsar o rei sem cor, de exigir sua morte, como Ye acredita conseguir fazê-la. Porém, assim como Miranda, os mais sábios alertam: é impossível matar o rei sem cor, no máximo, apenas aprendemos a conviver com ele. Daí que Ye, quando cessa de fugir e enfrenta o rei sem cor, vê na macha negra de finos chifres o seu próprio rosto.

Não há como descrever claramente quem é o rei sem cor. A alegoria, se apreender o tempo histórico, domesticá-lo, irá dizer que o rei sem cor é o tirano, a massa, o ódio e o medo crescente em nós num determinado período.  Mas o bom alegorista está olhando para outro lugar. Ele se prende não ao que é alegorizado (isto é, ele não confunde alegoria com metáfora) e, sim, à alegorização mesma, à força que sempre nos leva arruinados a outro lugar no ato da leitura (ou seja, o gesto eterno de dizer, “eis a alegoria de algo a se descobrir”).

Etimologicamente, alegoria é o ato de falar de uma coisa falando de uma outra. Se esse outra chega a ser conhecida ou não, é outro papo. O importante é o convite à jornada – a qual tão singela e aparentemente inofensiva Ye nos convida.

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Ye, de Petreca, saiu pela editora Veneta numa edição grande, lombada quadrada e capa cartonada, bastante bonita. Interessante como o “final feliz de superação” de Ye difere do fatalismo exibido em Carnaval de Meus Demônios, pela Balão, lançada em 2015. Nessa HQ muda, com um protagonista e universo semelhante a Ye, Petreca faz do horror uma inevitabilidade. Recomendo fortemente a leitura das duas HQs como finais alternativos para uma mesma jornada.

  • Coralim DH

    Eu gostei muito do traço, mas falar que lembra Sergio Toppi daí é um exagero do caraleo, hein? rs