Afetos de Jessica Jones: quando a heroína é uma vadia

Existem duas Jessica Jones? Existe a da série de 13 episódios da Netflix, recentemente lançada, e a protagonista da HQ Alias, de 2001 a 2004, publicada pelo selo adulto Marvel Max em 28 episódios? Ou, ainda que as diferenças inerentes de qualquer adaptação pesem, temos uma única personagem?

Comecemos pelas diferenças. Para mim a mais significativa é a física. A Jessica Jones da série é magra, bem branquinha de cabelo preto, o que dá um tom meio gótico pra moça sempre acompanhada de calça jeans, camisa escura sem estampa e jaqueta de couro. Nos quadrinhos o figurino não muda, mas Jessica tem a pele mais corada, o cabelo e os olhos castanhos, além de uma barriguinha. Enquanto a da série parece viver um constante estado pós-grunge, a dos quadrinhos mostra-se um corpo em transição. Quando adolescente era a esquisita cheia de espinhas, depois se tornou uma gatinha confiante colaboradora dos Vingadores (praticamente uma Paquita ganhando um contrato da Globo!) e, por fim, a detetive amarga e cínica da Alias Private Investigations. Se a Jessica da série parece durona, a dos quadrinhos aparenta maior fragilidade. Mas isso, evidentemente, ganha corpo pela “voz do pensamento”, recurso usado nos quadrinhos, e pouco traduzido na série numa eventual voice over.

Quanto a trama, essa sim é muito diferente. A série criada por Melissa Rosenberg (Dexter, Saga Crepúsculo) é uma típica crônica policial do início ao fim. Aliás, enquanto assistia, fiquei com a sensação de estar revendo algumas daquelas séries de justiceiros do início dos anos 90, como Justiça Final – com a diferença, é claro, de que não era um cara durão o protagonista. Nos quadrinhos, a crônica policial é o gatilho, mas aos poucos, o roteirista Brian Bendis e o desenhista Michael Gaydos vão nos conduzindo a uma revisão do gênero  super-herói. Killgrave, ou para os íntimos, Homem Púrpura, ganha contornos desde o primeiro episódio na série, enquanto que nos quadrinhos são poucas as pistas sobre ele até sabermos melhor do personagem somente na edição 24, já no fim da história. Enquanto o universo Marvel é discreto na série, nos quadrinhos Jessica vive rodeada de super-heróis. Mais do que isso, a onipresença de gente super-poderosa fantasiada é determinante.

Isso merece uma observação a parte. Nos quadrinhos Jessica era colega de Peter Parker, o aluno que todo mundo ridicularizava menos ela que tinha uma quedinha pelo garoto. Em casa, a adolescente Jessica se masturbava vendo um cartaz do Tocha Humana com o seu dedo fumegante. Quando sofre o acidente automobilístico com sua família, esbarrando num comboio militar, ela entra em coma, despertando não por acaso a partir das rajadas cósmicas dispersas na batalha entre o Quarteto Fantástico, Surfista Prateado e Galactus. Jessica é adotada por um casal carinhoso, sem filhos, e descobre seus super-poderes. Se torna a super-heroína Safira, fica amiga da Carol Danvers, a então Miss Marvel, e passa a colaborar com os Vingadores.

Então Jessica comete o erro de enfrentar o Homem Púrpura, e fica oito meses sendo usada por ele como capanga/dama-de-companhia, até o dia em que ele a manda matar o Demolidor e a distância faz o efeito hipnótico cessar. Porém, não antes da confusa Safira agredir a Feiticeira Escarlate e levar uma coça dos Vingadores, com direito a uma quase martelada do Thor, uma rajada do Homem de Ferro e um belo soco do Visão. Novamente em coma, Jessica desperta na S.H.I.E.L.D. através do tratamento psíquico da mutante Jean Grey, recebe então de Nick Fury uma proposta de emprego na agência e o perdão coletivo dos super-heróis pelo mal-entendido. Apesar de grata, Jessica anuncia sua aposentadoria.

Assim ela se torna a investigadora particular, que em todos os arcos da revista Alias, tem sempre sua vida esculhambada pelos segredos e dilemas dos super-heróis. É sufocante! Jessica Jones cai numa conspiração ao descobrir sem querer a identidade do Capitão América, Jessica precisa encontrar Rick Jones, o parceiro do Hulk, Jessica é contratada por Jonah Jamenson para descobrir a identidade do Homem-Aranha, Jessica busca encontrar uma menina que é apaixonada pelo Demolidor, Jessica precisa resgatar a Mulher-Aranha, vítima de traficantes, Jessica precisa salvar os Vingadores do Homem Púrpura. Além disso, a senhorita Jones passa uma noite com Luke Cage, começa a namorar Scott Lang, o Homem-Formiga, e tem uma tremenda queda por Matt Murdock, acusado publicamente de ser o Demolidor.

Numa das falas mais tocantes de toda a HQ, Jessica confessa que quando voltava de uma super-aventura, seu corpo urrava em adrenalina e tesão. Que as vezes ela chegava a se masturbar depois de lutar contra vilões, e com o tempo foi percebendo que isso havia se tornado uma droga. Ora, se uma pessoa normal hiper-estimulada é perigosa, uma mulher superforte é ainda mais! Essa condição de personagem que olha os super-heróis de fora, ainda que viva sempre a mercê deles, lembra o fotógrafo Phil Sheldon de Marvels. Com uma diferença determinante: Jessica Jones é uma mulher e sua história importa menos pelo o que ela é capaz e mais pelo o que ela sente ou sentiu. Trata-se, afinal, de uma poética dos afetos, daquilo que nos afeta, daquilo que afetamos e do que afetivamente nos toca, como leitores de super-heróis.

Isso a série passa mais longe, ainda que tenhamos Patsy Walker (a heroína Gata do Inferno), o policial Will Simpsom (o vilão Nuke), Luke Cage, o Homem Púrpura, além das menções aos Vingadores. Justamente por não poder se utilizar do elenco completo da Marvel para fazer da história da Jessica Jones uma janela de obervação, beirando a metalinguagem, a série torna sua pensata o problema do abuso. Ou antes, o problema do uso.

Pois o que aparece em toda a série são as consequências de pessoas usando outras pessoas. Isso é mais óbvio na violência contra a mulher por parte dos vilões. Mas o uso e abuso de pessoas é muito mais variado, com a mãe adotiva abusando da Patsy, da advogada Jeri Hogarth abusando de sua ex-esposa, dos homens usados por Killgrave seja em suas funções, seja em sua saúde, do abuso do trabalho escravo, do uso de soldados por parte do governo etc. Até mesmo a protagonista não escapa dessa rede. Jessica Jones usa inicialmente Luke Cage para buscar redenção, usa Patsy e Malcolm somente quando eles são úteis, e seu ganha-pão nada mais é do que se utilizar dos segredos sujos dos outros. Por isso o final da série, onde ela recebe uma infinidade de telefonemas pedindo socorro, amarra o tema de forma competente. Jessica Jones, tornando-se uma heroína, passa a ser de uso de toda a cidade. Típico da crônica policial, é um final fatalista para uma mulher ainda em superação dos usos e abusos que sofreu.

Porém há algo que amarra bem a Jessica Jones dos quadrinhos e da série: ela é uma vadia – sociologicamente falando. No final da HQ, no arco em que Jessica enfrenta Killgrave, o vilão acha que está numa história em quadrinhos, e várias vezes explica porque a personagem é uma whore, um mulher que “não se dá o respeito”, que transa com diferentes homens e tem um linguajar vulgar. De fato a Jessica dos quadrinhos tem mais parceiros e é mais desbocada, mas a da série está longe também de ser um modelo de mulher bonita e bem-sucedida como a amiga Trish. Apesar da tradução corrente de whore ser prostituta, acredito que, no caso em específico, a ofensa se encaixa melhor mesmo como vadia. Cabe considerar o qualitativo vadia. O que é uma mulher vadia? Por que vadia é uma ofensa?

De certa forma, a noção de vadia parece dar conta da mulher que não tem função social. Ora, quando as mulheres abastadas, no contexto do século XIX, eram prisioneiras de luxo de sua própria casa, ser vadia não era um problema. Mas, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho no período da guerra, ou seja, passaram a partilhar da vida na cidade, sua licença para transitar estava restrita ao mundo do trabalho. Foi precisamente a partir daí, então, que vadia pode ter se tornado uma ofensa. Pois vadia, vagabunda, é a mulher que circula na cidade, que participa da sociedade, mas não faz isso a trabalho, pelo menos não conforme uma função delegada e restrita. A vadia é como um Flâneur baudelairiano, o passante livre, receptivo em certa ociosidade, simpático a desvios e ligeiramente perplexo pelas cidades modernas, só que com a enorme diferença – e relevância – de neste caso se tratar de uma mulher e a cidade ser um mundo de super-heróis.

A vadia, portanto, é a mulher dos afetos em devir, a que se deixa levar pela vida desnuda, aberta em sua sensibilidade no transitar aqui ou ali. E por isso que o arqui-vilão só pode ser um manipulador, pois nada pior para a circulação livre dos afetos do que seu condicionamento a uma funcionalidade, ainda mais pela vontade alheia. Essa disputa, posta numa história em quadrinhos de super-herói e protagonizada por uma mulher num universo tão masculinizado, é abertamente uma provocação de Bendis. Não quer me parecer uma mera tensão machismo versus feminismo, mas o apelo para uma sensibilidade outra que aparentemente uma mulher fora dos corpos uniformizados pode oferecer. Jessica Jones é nossa heroína porque ela nos faz sentir afetados.

Agora, se isso é um sentir feminino, heroico ou humano, é você, leitor/espectador, que vai me dizer…


Alias saiu no Brasil pela editora Panini na extinta revista Marvel Max nos números 1 a 22, entre 2003 e 2005. Já o último arco, contra o Homem Púrpura, saiu em Marvel Max Especial, em 2005. Em 2010 a Panini lançou uma edição encadernada em capa-dura com as 10 primeiras histórias, porém não houve continuidade. Nos EUA existe uma edição Omnibus, com as 28 edições, mais a história What If Jessica Jones Had Joined the Avengers?, além de muitos extras do capista David Mack. Altamente recomendado!

  • Só vim ler hoje porque só acabei de ver a série no final de semana.
    Não sabia que as diferenças de história eram tão grandes entre a série e os quadrinhos. Vou colocar o Omnibus numa lista de desejos sem data definida, que #oremos que o dólar vai voltar para 2 reais…

    Sobre a análise, é realmente sobre como a Jéssica se tornou uma das minhas ‘heroínas’ favoritas. Não pelo lance meio banal de identificação (felizmente eu nunca tive uma situação de abuso minimamente memorável), mas pela temática tão voltada aos afetos. Sobre os contínuos abusos – eu me peguei várias pensando que a mãe da Trisch e a Jeri são pessoas muito piores do que Kilgrave. Talvez porque, sem super poderes, é tão fácil visualizar pessoas assim por aí, o que é um tanto quanto assustador. Kilgrave me parece aquele homem ‘infantilizado’ por não ter aprendido a lidar com o afeto (realmente, toda a série gira em torno de questões de afeto), enquanto que Jeri é vista rodeada de pessoas que lhe mostram genuíno afeto e continua a responder com ações profundamente sociopáticas.

    Jéssica é a mais humana. Sim, ela usa as pessoas, mas, diante de um oponente como Kilgrave, é possível culpá-la por esse tipo de reação? Por fazer o que não é bonito, o que não é bem visto? Aliás, ela toda não é um contínuo ‘fazer o que não é bem visto e sou assim mesmo, a sociedade que se vire’, seja ao usar as outras pessoas, seja por dormir com vários caras, seja por não ser ‘altruísta’ apesar de seus poderes?

    • Bacana a descoberta – e a tua leitura, Cindy.
      Recomendo muito a HQ. Espreme dinheiro de onde for, acredito que tu vai adorar.