Adormecida mais uma vez

Um dos grandes desafios quando se trabalha com fábulas é lhe dar uma imagem. Enquanto relatos originalmente orais, as fábulas possuem uma imagem muito particular de acordo com quem conta e com quem ouve. Na medida em que algumas fábulas vieram a se inscrever na literatura por Perrault, por Andersen, pelos irmãos Grimm, entre outros, a escrita, a partir do século XIX, também abriu a possibilidade para outras formas de retratação dessas narrativas populares. Na pintura, o simbolismo encontrou um objeto de abordagem muito rico. Afinal, essas estórias, de tanto repetidas, tendiam a nos anestesiar de sua rica gama simbólica. 
Essa trajetória histórica nos conduz aos dias de hoje, quando existem tantos filmes, séries e quadrinhos procurando resignificar essas fábulas a partir de um deslocamento, de uma subversão ou mesmo por sua reiteração. E isso tudo passa pela imagem, do cinema, dos livros ilustrados e das HQs. É nessa tradição, nessa busca por uma imagem cara ao simbolismo há mais de um século atrás, que se apresenta “Adormecida: Cem anos para sempre”, de Paula Mastroberti. 

Preciso confessar, já havia avistado esse álbum em diversas ocasiões e deixado de lado por achar que fosse mais uma dessas publicações infantis interessadas em única e exclusivamente se promover por editais de aquisição da rede pública de ensino. Mas bastou eu folhear o livro para ter outra impressão. 
A arte é primorosa, bebe em Moebius, Druillet, Bilal e toda uma tradição de ficção científica/fantasia da banda desenhada francesa. O formato europeu, os quadros grandes, o traço elegante, hachuriado e todo um trabalho de indumentária, decoração e arquitetura municioso fazem do desenho algo impressionante. Os muitos quadros que trabalham com diversos elementos em camadas equilibram a sensação de movimento que em outros casos se diminuiria perante a contemplatividade da pintura. Assim, a cor é auxiliar na condução da trama, do azul do solitário príncipe ao amarelo dos tempos de alegria, do vermelho da nobreza ao verde da maldição da bruxa.
Contudo, se a arte é virtuosa, o roteiro não fica para trás, num jogo que faz lembrar Neil Gaiman em alguns momentos (embora a HQ tenha sido produzida no final dos anos 1980 e início dos 90, na mesma época que saía Sandman nos EUA). A estória da Bela Adormecida é conduzida pelo príncipe aventureiro que resolve descansar num castelo em ruínas num misto de delírio e realidade cruel, onde a metáfora da bela adormecida beira o ato necrófilo do beijo de amor em um belo cadáver. A paixão pelo estilo gótico, caro ao simbolismo, não deixa por menos, com as misturas entre cristianismo e paganismo, principalmente através das três fadas madrinhas (um anjo, uma fada nua e outra fada vestida à maneira Disney). 
Outro aspecto relevante é o comum cruzamento temático entre questões carnais e aspirações espirituais. Conforme dá a entender, a bruxa precisa da Bela para conseguir sua passagem para o paraíso, e essa passagem ocorre pela intocabilidade do sono da morte e do prazeroso sexo que a bela bruxa faz com o príncipe. O final é ambíguo, cabendo ao leitor repensar o plano da bruxa e qual o limiar do ser entre a bela adormecida e sua algoz. Uma forma de nos fazer rever aquela narrativa já tão manjada da fábula, de nos tornar consciente da profundidade que se esconde por trás dessas estórias. É na metáfora visual de longas escadas e arcos, onipresentes na HQ, que podemos dizer que “Adormecida: Cem anos para sempre” encontrou mais uma imagem, aquela que nos dá acesso, mais uma vez, à uma mesma estória que tanto muda.        
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“Adormecida: Cem anos para sempre”, de Paula Mastroberti, saiu pela editora 8Inverso em 2012 (mais de 20 anos depois de sua produção) em excelente acabamento gráfico e capa-dura. Pode ser adquirido diretamente pelo site da 8Inverso.