A Fala e o Ser de Sergio Toppi e sua Sharaz-De

Nesses quase quatro anos de QnS creio que nunca abordei uma única adaptação em quadrinhos de um grande clássico da literatura (exceção feita aos personagens da literatura que proliferaram nas HQs, como Tarzan, Conan etc). O principal motivo para essa ausência é a minha profunda desconfiança da maioria das adaptações. Ainda prevalece a ideia dos quadrinhos como uma “droga”, porta de entrada para o vício supostamente mais dignificante que é a literatura. Essa lógica faz com que grande parte das adaptações acabem tão somente se preocupando em contar resumos quadrinizados do original, abrindo mão de toda uma riqueza que os recursos os quadrinhos possuem. Mas isso, evidentemente, não é uma regra.
Em contraponto posso citar Sharaz-De, de Sergio Toppi. Caso não esteja reconhecendo, trata-se de Xerazade, a narradora de As Mil e Uma Noites, clássico da literatura mundial que reúne contos árabes, persas e indianos. Compilados em língua árabe a partir do século IX, ganharia projeção mundial após a tradução francesa de Antoine Galland, publicada entre 1704 e 1717. Galland tomaria muitas liberdades na tradução, e inclusive teria acrescentado contos avulsos que estavam fora dos manuscritos árabes. Ironicamente, alguns desses acréscimos se tornariam histórias tão famosas quanto As Mil e Uma Noites, como é o caso de Simbad, o marujo, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa e Ali Babá e os Quarenta Ladrões. 

Contudo, a adaptação de Sergio Toppi não aposta nos “figurões”. Publicada originalmente na Itália, na revista Linus a partir de 1979, a série inacabada de oito episódios foi compilada em um único volume em 1984. Porém, seria apenas no ano 2000 que o amplo reconhecimento internacional ganharia corpo, isso por meio da editora francesa Mosquito que traduziu Sharaz-De para o francês. O sucesso foi tamanho que a própria editora francesa possibilitou a Toppi, já na altura dos 70 anos de idade, a realização de novos episódios de Sharaz-De. Mais três então foram produzidos e publicados originalmente em 2005. De modo que todos os 11 episódios  ganhariam edições integrais na França e nos EUA em 2013 e em 2014 nossos colegas lusitanos também teriam acesso à Sharaz-De. No Brasil ainda é uma obra inédita, porém um sussurro me disse que deve sair por aqui num futuro próximo…
Ainda assim é assombroso o fato de grande parte do mundo (re)conhecer Sergio Toppi tão tardiamente. Toppi é daqueles artistas que qualquer um, ao menor relance, simpático ou não aos quadrinhos, dirá intuitivamente que está diante de algo poderosamente artístico. E convenhamos, isso é raro. Walter Simonson, mais conhecido por sua célebre passagem por Thor, no prefácio da edição americana comenta o que ele julga as três grandes características de Toppi: a maestria da ilustração, o cuidado pelos rostos e maneira como ele habilmente converte a bidimensionalidade dos quadrinhos em tridimensionalidade.
De fato a arte de Toppi possui uma “caligrafia” bastante particular: a composição sofisticada de preto e branco, a figuração que faz os cenários atingirem o limite do simbólico, o leiaute que, em Sharaz-De, é ainda mais rebuscado do que em outros trabalhos seus. A narrativa consegue conciliar tudo isso através de um traço repleto de hachuras em paralelo e cruzadas, propiciando a textura que conquista com o branco um equilíbrio difícil de analisar. 
Poderíamos dizer que Toppi em alguma dose reúne Moebius com Jack Kirby. Tem do primeiro aquela mesma habilidade rara de fazer de sua arte um objeto de contemplação e ainda assim não perder o fluxo da leitura, assim como partilha com o segundo alguma fixação por deuses, demônios e entidades mágicas que andarilham pela Terra. A diferença com Kirby, contudo, reside no modo tão peculiar que Toppi constrói suas narrativas de homens e deuses em Sharaz-De. 
Os onze contos que constituem a HQ, sendo somente dois coloridos, partilham do que podemos chamar de “tragédia lírica”. Do lado trágico há o senso de imutabilidade, de inevitabilidade de uma narrativa que se repete e conduz os personagens e a própria história a destinos circulares, fatídicos ou mesmo previsíveis. Do lado lírico há a percepção de que tudo isso é contado a partir de uma subjetivação poderosa, seja pelo texto posto no tempo passado, seja pela imaginação fértil que pode ser tanto de Sharaz-De quanto do ouvinte, o rei Shahriyar. 

O amanhecer que trará minha morte está distante. Conceda-me isto, meu rei: que para avivar as horas que restam, eu possa recontar antigas e extraordinárias histórias até que o novo dia me roube a fala e o ser.

Diz Sharaz-De que acaba sendo dia após dia poupada por Shahriyar para que conte a ele uma nova história. Notei-me divagando sobre a parte final da citação: a fala e o ser. Não seria isso a essência do bom narrador? Isto é, a sua capacidade de ser o que nos fala, e dos nos falar sobre o que vem a ser? Isso, sobremaneira, Sergio Toppi é capaz, sendo Sharaz-De uma história em quadrinhos que toma, do início ao fim, a fala e o ser de qualquer leitor.
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A edição que disponho é a americana, Sharaz-De – Tales From The Arabian Nights, publicada em capa-dura pela editora Archaia. Porém utilizei-me também do prefácio da edição portuguesa de João P. Boléo, que muito gentilmente André Ornelas me disponibilizou. Muito obrigado André!

Caso alguém se interesse também pela obra original, a editora Globo recém lançou uma caixa do Livro Das Mil e Uma Noites, que, segundo a editora, é a primeira tradução direita do árabe no Brasil. Vale a pena dar uma clicada aqui.