A boa aposta de Jockey

Arrisco a dizer que os quadrinhos brasileiros vivem o seu melhor momento em toda história. Sobretudo de São Paulo, em virtude do Programa de Ação Cultural – ProAC, muita coisa realmente boa tem chegado com força ao público. O cavalo premiado da vez é Jockey, com roteiro de Rafael Calça e desenhos de André Aguiar que também, junto com Pedro de Rosa, faz as cores. A estória se passa numa São Paulo dos anos 1930 ou 40, ainda que anacronismos estejam presentes, do vestuário à aparição de um fusca. O que importa, contudo, é a produção de um imaginário. Isso Jockey opera virtuosamente.

 A trama de vingança com pitadas de noir, fantasia, mistério e mitologia (esta bem mais discreta) em volta do jóquei clube de São Paulo em muito ganha sua dimensão e relevo graças à arte. Cada quadro ou conjunto de quadros relativos a uma ação ou sequência possuem, na maioria das vezes, um tom dominante (o que lembra as cartelas de cores sobre filmes preto e branco ainda do período mudo do cinema). O desenho, por sua vez, é rabiscado, vai além do hachurado, e possivelmente é feito à lápis, “sem arte-finalização” (isto é, sem a arte-finalização ortodoxa que nada mais é do que aquela que procura subtrair do desenho o seu próprio traçado). Além disso, o leiaute sintonizado com certa escola europeia que aposta em quadros amplos, sarjetas demarcadas e estabilidade visual, possibilita o equilíbrio que faz da arte de Jockey algo entre o clássico e o marginal, sem ser maçante e, ao mesmo tempo, sem ser agressivo. Em certo ponto me fez lembrar do trabalho de Kevin O’Neill e do colorista Benedict Dimagmaliw em A Liga Extraordinária, com a diferença que O’Neill multiplica o seu traço pela quantidade de objetos que apresenta enquanto André Aguiar o faz pelo relevo dos poucos objetos que ilustra.     
O roteiro de Rafael Calça, por sua vez, cumpre bem o gênero a que se propõe. A trama gira em torno de Álvaro, um jovem empresário de sucesso que cuida da carreira do promissor e íntegro Mosca, o único jóquei negro. Tamanho talento incomoda outro jóquei, Teodoro, filho do poderoso e nada escrupuloso Senhor Ventura. Para complicar, Álvaro e Moira, a bela irmã de Teodoro, estão tendo um romance escondido. Os laços se intrincam ainda mais com a participação do jovem policial-herói Paolo e do misterioso Matias, um fugitivo do sanatório que está assassinando figuras ilustres da cidade conforme conversa com a imagem fantasmagórica da cabeça de um cavalo. A referência ao deus Cariocecus (deus da guerra na mitologia lusitana) justifica tanto a insistente imagem de cavalos sacrificados (seja sacrificado para a vitória, seja em ritual religioso, afinal, cavalos eram oferecidos a Cariocecus), quanto ao círculo crescente de violência e guerra entre os personagens.
Para não dizer que todos os cavalos ganharam as apostas, é justamente esta violência, quase que naturalizada, ao final da estória, que tira um pouco de sua força quando não faz uma ascensão simbólica mais clara à Cariocecus (como na vingança de Moira contra Teodoro, aludindo à evisceração ritualística), ou quando, no sentido oposto, não nos mostra um único personagem que resista a esse círculo violento, negando-se a ser um fiel do deus da guerra. Ou seja, a violência final de Jockey beira perigosamente ao gratuito, sem nos dar nada além do que pessoas matando umas às outras. Se isso é lógico para a trama, não consegue ser igualmente poético. 
Outro tópico que me incomodou particularmente foram os desenhos da mulher logo após ser estuprada. Uma discussão estética, cara ao cinema, é como filmar uma cena de estupro, ou pós-estupro, que não seja fetichizada, que sintamos mais a dor da mulher e menos o prazer de ver seu belo corpo exposto. Em Jockey, esse problema não é resolvido. O gestual, a posição e enquadramento da jovem recém estuprada por alguém em que ela confiava continuam mantendo-a sexy. Isso não é um apontamento moral, é tão somente estético. Se não sentimos a dor da personagem, ela perde peso para nós como uma possível protagonista. 
E é justamente a fraqueza das personagens femininas que acaba atrapalhando Jockey a despeito do noir que historicamente fez pela femme fatale personagens femininas tão interessantes (aliás, já abordei isso lendo Agente X-9 de Dashiell Hammett e Alex Raymond). Ainda assim, Jockey se junta à ótima safra de quadrinhos brasileiros como A Vida de Jonas, Aos Cuidados de Rafaela, Klaus, Tungstênio, Cumbe e tantos outros que estão na minha pilha e ainda preciso ler. Sugiro que você aproveite e corra logo atrás dessas edições, porque não será sempre que teremos tanta sorte nas apostas.
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Jockey acabou de sair pela editora Veneta, agora em 2015, numa edição capa-dura caprichada com uma capa muito bonita, ainda que dentro não traga praticamente nada além do que a própria HQ. Para adquiri-lo vale dar uma conferida aqui.